O que quer de mim, amor? Intensidade e paixão pela vida permeiam os contos do premiado Manuel Rivas

Intensidade e paixão pela vida permeiam os contos do premiado Manuel Rivas  

Entre o amor e a solidão, personagens vão em busca de encontros e experiências significativas 

O que quer de mim, amor?  é um dos  livros mais expressivos do escritor e jornalista espanhol Manuel Rivas. Considerado o principal representante da literatura galega contemporânea, recebeu o Prêmio Nacional de Narrativa por esta obra, que reúne 16 contos em que o amor e os sentimentos são explorados de forma profunda. A narrativa é delineada por palavras ternas, ritmo e sensibilidade marcantes.

Característica expressiva nos contos é a forma como o autor transpõe o cotidiano para a literatura, retratando as emoções a partir de encontros e desencontros. A temática de Rivas rompe as barreiras geográficas e cria sensação de semelhança ao abordar tópicos e inquietações universais, como paixão, perdas e descobertas. Os personagens expõem seus pensamentos íntimos e desejos.

Rivas explora as relações de amor paterno, materno, filial, amor carnal, amor pela música, pelo futebol, amor pelo ofício. Os textos valorizam as relações familiares, sem  temer demonstrar felicidade e entusiasmo. Há referências a ícones espanhóis, como, por exemplo, no esporte – o Deportivo de La Coruña –, e na música – o cantor Julio Iglesias e os ritmos pasodoble e bolero –, além de obras de arte – como o quadro A leiteira, de Vermeer.

Trecho do livro

 ’Hoje o professor disse que as mariposas também têm língua, uma língua fininha e muito comprida, que fica enrolada como a mola de um relógio. Ele vai mostráela para nós com um aparelho que deve chegar de Madri. Não parece mentira que as mariposas tenham língua?’

‘Se ele diz, é verdade. Muitas coisas parecem mentira e são verdade. Você está gostando da escola?’

‘Muito. E ele não bate. O professor não bate.’

Não, o professor Gregorio não batia. Pelo contrário, quase sempre sorria com sua cara de sapo. Quando dois alunos brigavam durante o recreio, ele os chamava, ‘os dois parecem carneiros’, e fazia que apertassem as mãos. Depois os sentava lado a lado, na mesma carteira. Foi assim que conheci meu melhor amigo, Dombodán, grande, bondoso e desajeitado. Havia outro garoto, Eladio, que tinha uma pinta na bochecha. Eu o teria surrado com prazer, mas nunca fiz isso por medo de que o professor me mandasse apertar a mão dele e que me tirasse do lado do Dombodán. O jeito que o professor Gregorio tinha de mostrar que estava muito zangado era o silêncio.  (p. 21)

A língua das mariposas: a Guerra Civil Espanhola adaptada para o cinema

Destaca-se entre os contos  A língua das mariposas, texto carregado de emoção que aborda a relação entre um garoto e seu professor, um inquieto amante da natureza. Os dois  se tornam companheiros de  expedições, mas são  obrigados a se afastar com a eclosão  da Guerra Civil  Espanhola, quando o professor é acusado de republicanismo e subversão.

A história foi transformada em filme, com título homônimo, pelo cineasta José Luis Cuerda. Woody Allen afirmou que A língua das mariposas é  uma obra que faz pensar e que toca fundo.

Sobre o autor
Manuel Rivas  nasceu em La Coruña, Espanha, em 1957, e é um dos mais aclamados autores da literatura espanhola. Jornalista e escritor reconhecido internacionalmente, um dos fundadores do Greenpeace Espanha, desde muito jovem trabalhou com jornalismo e suas reportagens  e artigos  –  um  corpus  literário   –  estão reunidos em El periodismo es un cuento (1997 , Mujer en el baño (2003  e A cuerpo abierto (2008 . Também escreveu poesia, como a antologia El pueblo de la noche  (1997  e  La desaparición de la nieve  (2009 . Como narrador, entre outras  obras, publicou  Un millón de vacas  (1990 ,  Prêmio da Crítica Espanhola, e  Los comedores de patatas (1992  – ambas reunidas em El secreto de la tierra (1999  –, En salvaje compañía (1994, Prêmio da Crítica Galega, El lápiz del carpintero (1998 , Prêmio da Crítica Espanhola e Prêmio da Seção Belga da Anistia Internacional, além dos volumes de contos Ella, maldita alma (1999 , La mano del emigrante (2001  e  Las llamadas perdidas  (2002 , e a obra dramática  El héroe  (2006 .  O que quer de mim, amor?, Prêmio Torrente Ballester e Prêmio Nacional de Narrativa, é agora publicado no Brasil pela Tinta Negra Bazar Editorial, que vai lançar  também o romance  Los libros arden mal, considerado uma das grandes obras da literatura espanhola, vencedor do Prêmio Nacional da Crítica em Galego e do Prêmio Livro do Ano. Manuel Rivas escreve para o jornal El País.

Informações bibliográficas

O QUE QUER DE MIM, AMOR?
MANUEL RIVAS
Trad. Elisa Martins
16x 23cm, 128p.
Literatura espanhola, contos
ISBN 9788563876041

A ira da berinjelas – Sabores e sentimentos materializados em palavras

Escritora indiana cria histórias em que tempera as relações humanas com cominho, feno grego, açafrão, curry e toques de pimenta.

Bulbul Sharma aborda o amor pela comida como um elemento de libertação e conexão entre mulheres de diferentes gerações. Baseada em suas memórias afetivas, olfativas e gustativas, a autora traça um rico e saboroso painel da sociedade indiana e transforma em literatura toda a fartura de temperos e paixões servidas à mesa em uma terra de contrastes.

Nas doze histórias de Bulbul Sharma, a comida — de jantares elaborados à mais simples compota — é o principal elo entre os personagens e o insaciável mundo em que vivem. Logo no primeiro conto de A Ira das Berinjelas, “Potes de ouro”, a comida é apresentada como um bem precioso e digno de reverência. “Mantinha-se a despensa trancada e os alimentos dentro dela podiam ser vistos apenas por dez minutos às seis da manhã, às onze e então às quatro da tarde, à maneira de algumas exposições raras e de preço incalculável num museu”, escreve a autora. É dado o tom das narrativas que se seguem, nas quais, em idiossincráticos recortes cotidianos, Sharma destila sensibilidade e pitadas de ironia por meio de figuras humanas cativantes que vivenciam e reforçam  o poder transformador das ações de cozinhar, comer e falar sobre comida.

Trecho do livro

“Tinham restado apenas os domingos para se lembrar de que fora casada. Nesse dia levantavacedo, tomava um rápido banho e vestia um sári limpo e engomado. Terminava seu puja mais rápido que nos outros dias e, passando com agilidade o bindi de vermelhão na testa, seguia para a cozinha para marinar a carne. O cardápio era mais ou menos o mesmo todo domingo, pois o senhor Kumar tinha cinco ou seis pratos favoritos que eram preparados alternadamente durante o ano. Embora há muito separado da esposa a quem nunca dera importância, o senhor Kumar almoçava com ela em períodos regulares, uma vez por semana. O restante da semana comia aquilo que seu criado lhe preparava ou ia ao clube. Porém, ao chegar domingo, o senhor Kumar, como um assassino atraído de forma irresistível ao local onde havia matado sua vítima, seguia para casa para almoçar com sua mulher. Chegava pontualmente às 12h30 e não batia na porta ou tocava a campainha, já que ela sempre deixava a porta aberta. Ele se sentava e lia o jornal, enquanto ela dava os toques finais à comida. Às vezes, ele entrava no quarto que havia sido seu dormitório e verificava os armários, mas nunca tocava em nada. Nunca conversavam.”  Do conto “A ira das berinjelas”

Em histórias  como “Banquetear com a vingança” e “Comer  até morrer”,  a culinária se apresenta como um instrumento de poder. No conto homônimo ao livro, por sua vez, a refeição é o único ritual capaz de fazer com que um casamento siga tendo algum sentido.  Colecionadora compulsiva de receitas, Bulbul Sharma complementa cada narrativa com detalhes sobre o preparo de pratos e sobremesas que,  carregados da minuciosa simplicidade

Entre antigas preferências familiares, sugestões de amigos e refeições “rápidas e preguiçosas” estão iguarias como picles de manga, chutney de hortelã, pakora de espinafre, arroz de tomate e alho-poró, batatas com gergelim, peixe com iogurte, bolo de cenoura, khir de laranja e chá de mel com gengibre.

Ainda  que  com  tramas e personagens envoltos em aromas e cenários em  princípio exóticos aos leitores ocidentais, Bulbul Sharma é capaz de permear suas histórias de paixão e gastronomia com um sentimento de universalidade. A edição inclui também um glossário com as principais comidas, termos familiares, culturais, além de festas e relações religiosas abordadas em hindi ao longo do livro.

A autora

Bulbul Sharma nasceu em Nova Delhi, Índia, em 1952. Estudou língua e  literatura russa na Jawaharlal Nehru University. Escritora, artista plástica e professora de arte para crianças com necessidades  especiais, seus trabalhos estão expostos na National  Gallery of Modern Art, Lalit Kala Akademi, bem  como em coleções privadas na Índia, Reino Unido,  Estados Unidos, Japão e França. Seus livros foram  publicados em inglês, italiano, francês e finlandês. A autora teve a ideia de escrever A Ira das Berinjelas como um livro de receitas do dia a dia após publicar uma  história sobre mulheres e comida para uma antologia  internacional. Bulbul considerou essa relação tão natural que a transformou na trama central deste  livro encantador. É ela mesma quem diz:  “Quando você nasce em uma família bengali,  as mulheres estão sempre falando sobre comida. Quando está almoçando, você começa a discutir o que vai ter para o jantar”.

Informações bibliográficas

A IRA DAS BERINJELAS
Histórias de paixão e gastronomia indianas
BULBUL SHARMA
Trad. Petê Rissatti
14 x 21cm, 184p.
Literatura indiana, gastronomia, receitas
ISBN 9788563876324

 

Flix, o cartunista alemão, tem seu livro de HQ publicado no Brasil

A Alemanha dividida e reunificada, pela linguagem dos quadrinhos

Um dos mais festejados cartunistas contemporâneos, Flix mistura autobiografia, história, jornalismo e quadrinhos, um estilo em plena ascensão

Num  domingo  de  2006,  o  jornal  berlinense Tagesspiegel  publicou  uma  nova  história  de  Felix Görmann, cartunista alemão mais conhecido  internacionalmente como Flix. Sucesso não só em seu país de origem, mas em várias partes do mundo com suas séries autobiográficas, o artista desta vez aparecia sob a pele de um garoto  de 8 anos, cheio de curiosidades, ilusões e impressões a respeito do cotidiano num país dividido  por um muro. Eram as suas próprias lembranças da infância na Alemanha rachada pelo Muro de Berlim, transformadas em quadrinhos. A tirinha fez tanto sucesso que Flix logo começou a perguntar a amigos e parentes quais eram as suas recordações da RDA e da RFA, da democracia e da ditadura.

O livro Quando lá tinha o muro… Lembranças daqui e de lá reúne os quadrinhos criados a partir das mais de 30 entrevistas, são depoimentos capturados pelo traço despojado e pelo bom humor característico do cartunista alemão. Além disso, a publicação marca, enfim, a chegada ao Brasil da obra de Flix, um dos autores de quadrinhos mais festejados na Europa.

Como de praxe nas tirinhas do  artista  alemão, as lembranças reunidas no  livro remontam a narrativas comuns, fragmentos do cotidiano tocados pelos radicalismos da grande História. Por isso mesmo seus cartoons são tão cativantes. As memórias que surgem no cenário da Alemanha dividida partem de impasses corriqueiros, de delicados e inventivos meandros da imaginação infantil ou juvenil. Será que, do outro lado, tanques de guerra de brinquedo são considerados perigosos? Do lado de lá nunca clareia de verdade, pois fábricas enormes escurecem o céu? O muro é como uma tábua? O outro lado é, de uma forma ou de outra, um mistério no limiar entre o divertido e o melancólico, entre o medo e o desejo, a curiosidade e a audácia.

Do outro lado vêm histórias proibidas do James Bond, vem o único bordão que o periquito conhece, vem uma paixão desconhecida e perdida e vêm os boatos de que, lá, as pessoas são todas teleguiadas. Mas vêm também fantasmas e traumas difíceis de esquecer, saudades e descobertas nem sempre felizes.

Com uma sinceridade comovente, Flix compõe em Quando tinha o muro… um mosaico de sensações sobre um período histórico  tão marcante na História recente, conseguindo surpreender o leitor a cada tirinha. Descendente dos artistas franco-belgas e de suas histórias de teor universal, entre a elegância e a objetividade, Flix é um mestre dos traços simples e da narrativa curta. Um artista que tem ajudado, com sua despretensiosa genialidade, a aumentar o rol de quadrinistas a adotar, com sucesso, a autobiografia como mote para suas tirinhas.

Sobre o autor

Flix nasceu em 1976, na cidade alemã de Münster/Vestfália. Estudou design de comunicação em Saarbrücken e Barcelona e atualmente vive em Berlim. Vencedor de vários salões de humor, ficou conhecido por sua história em quadrinhos Heldentage (Diário* de*um*herói, em português), uma espécie de autobiografia. Com essa HQ, conquistou o prestigiado prêmio Max und Moritz de 2004, assim como os prêmios  ICOMdIndependent Comic Prize, Award from the Newcomer Competition of the Art Directors’s Club Germany, Award from the LuckyStrike Junior Designer Award, First Swiss Cartoon Award, Award for “VerFLIXt “dcartoons. Publicou mais de 10 livros e seu trabalho já foi editado em línguas como espanhol, francês e coreano.

Mais informações sobre o autor

Terroristas têm direito de se queixar de condições injustas de detenção?

10 paradoxos moraisRecentemente, um tribunal de Oslo informou que o terrorista Anders Behring Breivik pode ser condenado  à internação psiquiátrica e não à prisão. Em resumo: ele receberá tratamento psiquiátrico por ter assassinado 77 pessoas, devido o laudo dos psiquiatras que foram indicados para opinar sobre o caso o consideraram psicótico. Os especialistas chegaram ao diagnóstico de “esquizofrenia psicótica” após 13 entrevistas com Breivik na penitenciária de segurança máxima onde ele está detido em regime provisório.

Ao pegar o livro “10 paradoxos morais”, de Saul Smilansky, lemos na 4ª. capa o seguinte:

Terroristas têm direito de se queixar de condições injustas de detenção e da morte de pessoas que lhes são caras quando eles são responsáveis pela perda de milhares de vidas inocentes?

Dilemas desse tipo são recorrentes em nossa sociedade. Dez paradoxos morais discute as questões mais controversas que dominam o senso comum sob o ponto de vista da ética filosófica. Ao suscitar perguntas e sugerir possíveis desdobramentos e interpretações, Saul Smilansky apresenta um livro esclarecedor, que desvenda as contradições da moralidade no cenário atual.

Exemplos provocadores para compreender o paradoxo da vida

Filósofo explora polêmicas em torno das escolhas quepessoas adotam

“Ser ou não ser, eis a questão.” A famosa sentença do “Hamlet” de Shakespeare comprova quenão é de hoje que o paradoxo da dúvida está presente não só na dramaturgia, na literatura, mas também na vida real das pessoas.

Seja no âmbito pessoal ou profissional, por meio de notícias de jornais, ou de decisões  que precisam ser enfrentadas em algum momento da vida, indivíduos se deparam com questões espinhosas, problemas que precisam ser encarados, resolvidos. Dez paradoxos morais discute as questões mais controversas que dominam o senso comum sob o ponto de vista da ética  filosófica. Ao suscitar perguntas e sugerir possíveis desdobramentos e interpretações, Saul Smilansky apresenta um livro esclarecedor, que desvenda as contradições da moralidade no cenário atual.

Observador dos estigmas humanos, Smilanskyé figura tarimbada no quesito estudos filosóficos em torno da ética, do comportamento e dos paradoxos morais. Filósofo israelense, em suas aulas e artigos ele aplica questões do dia a dia que muitas vezes têm consequências para a vida em sociedade, para políticas governamentais e decisões de cunho internacional. Por exemplo: terroristas têm direito de se queixar de condições injustas de detenção e da morte de pessoas que lhes são caras quando eles são responsáveis pela perda de milhares de vidas inocentes? Dilemas desse tipo são recorrentes na sociedade.

Os capítulos abordam temas como o Feliz Infortúnio – segundo o autor, “mesmo o mais severo infortúnio precisa ser visto como boa sorte, apesar da prolongada paradoxalidade que essa visão parece envolver”–,demissão benéfica, justiça e punição, chantagem, queixa moral, preferir não ter nascido e metaparadoxos – que demonstram que, em alguns casos, não necessariamente um paradoxo significa ou tem uma consequência ruim.O livro é dotado de questionamentos que, apesar de contraditórios, muitas vezes, desafiam a racionalidade. Smilansky defende que “os paradoxos podem resultar de fatos persistentes, comuns ou não.

Também surgem de novas formas de pensar; das razoáveis limitações das nossas emoções morais; de como funcionam os conceitos morais; e de intuições morais fundamentais”. Em Dez paradoxos morais vemos o quanto a filosofia pode ser prazerosa e esclarecedora e, ao mesmo tempo, um instigante desafio para o leitor.

Sobre o autor

Saul Smilansky (Jerusalém, israel, 1961) é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Haifa, Israel, e autor de  Free Will and Illusion (2000). Seu trabalho é elogiado em âmbito internacional. Smilansky escreve artigos para as principais publicações de filosofia do mundo.

Filosofia: combustível para a realidade

Numa divertida viagem pela História, livro revela o que está por detrás de ideias como a moeda, o relógio, a economia ou a lógica.

Quando despertamos de manhã, não é comum  nos perguntarmos  por que o nosso tempo é dividido em fatias e organizado num mecanismo chamado relógio. Também não costumamos indagar como um simples pedaço de papel – chamado “dinheiro” – pode ser mais valioso do que uma outra amostra do mesmo material  –  uma folha em branco, por exemplo.  Isso porque o relógio e o dinheiro, tão presentes em nossas vidas, acabam parecendo elementos da natureza, coisas que sempre estiveram ali. Pensamos neles  automaticamente. E, por isso mesmo, têm tanta força: são ideias projetadas em nossas mentes desde  que nascemos, e  as quais naturalizamos, sem nos perguntarmos como e por que surgiram.

Mas o que há por detrás dessas  invenções? Pequena história das grandes ideias: Como a filosofia inventou  nosso mundo  é um convite a observar com olhos curiosos essas “ideias escondidas” no cotidiano, elaborando perguntas obscurecidas pelo hábito. Porque tanto a moeda quanto o relógio  foram  inventados, nasceram de pequenas ideias que, por diferentes motivos, acabaram fazendo mais sucesso do que outras, e ajudando a mudar o mundo ao seu redor. Em comum entre elas, a necessidade de estarem atreladas à imaginação humana para existirem e se manterem vivas, uma vez que, na prática, são impalpáveis.

Trecho do livro

“Quando estamos diante do espelho ou passamos manteiga num pão, a filosofia não incomoda mais, só vem à tona quando as pessoas num repente estão sob os holofotes e precisam dizer algo importante. Então chega a pergunta que faz o suor escorrer pela testa, que deixa  a boca seca. Mas a verdade é que considerar a mensagem mais importante constitui o pior dos erros. As ideias realmente grandes da filosofia são formadas a priori durante a nossa vida — não raro de forma inconsciente. Quem, por exemplo, atormenta as crianças na escola e as obriga a aprender coisas totalmente inúteis? Constitui uma lei da natureza uma criança de 12 anos com uma mochila gigantesca nas costas ir para uma escola gelada para memorizar conjugações verbais?

Não, inclusive a escola não é nada mais que uma ideia aplicada, ou seja, a fantasia que depende da formação de cada ser humano (e por motivos misteriosos inseriufse aqui a opinião de que a conjugação verbal é um meio comprovado para formarmos advogados eficientes). Olhando bem de perto se vê que muito do que se considera óbvio existe apenas por essa fantasia — ou, mais exatamente, existe porque todos acreditamos nela.” (p. 9)

Filosofia: combustível para a realidade

Para compreender essas invenções fundadoras, é preciso aceitar o convite primordial da filosofia, e também olhá-la com novos olhos. O alemão Martin Burckhardt nos incita a fugir do estereótipo de que para entender a filosofia é preciso recorrer às prateleiras das bibliotecas. Pelo contrário:  à  la  Sócrates, o autor propõe enxergar a curiosidade como matéria-prima original da filosofia. E deixar-se, então, enredar pelo seu jeito instigante de vasculhar a História e fazer perguntas do tipo “proibidas” – num jeito que lembra o  clássico O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder.

Num estilo bem-humorado e ágil, lançando mão de referências que vão da cultura erudita à pop  – Aristóteles, Virgem Maria, Freud, Monty Python e Steve Jobs estão no rol de personagens citados –, Burckhardt tenta responder a questões como essas. Revela, por exemplo, que a ideia de ginásio, esse espaço ao qual confiamos o tempo de nossos filhos, teve origem na palavra grega  Gymnos, que quer dizer  nu  –  e, quando imaginamos um ginásio grego, é totalmente apropriado imaginar uma horda de rapazes nus que se dedicam com fervor à educação física. Também da Grécia antiga vem a “polícia”, que tem esse nome porque os gregos chamaram de “polis”  a  cidade-Estado. Mesmo a verdade foi uma ideia  inventada em muitas camadas. Em comum, ideias que deixaram o campo da abstração para se tornarem realidade.

 O autor

Martin Burckhardt nasceu em 1957, na Alemanha. Estudou germanística, artes cênicas e história em Colônia. Artista, professor e autor de vários livros e artigos, leciona na Universidade Humboldt e na Universidade Livre de Berlim.

Dados bibliográficos

PEQUENA HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS
Como a filosofia inventou nosso mundo
MARTIN BURCKHARDT
Trad. Petê Rissatti
14 x 21cm, 176p.
Não ficção, filosofia, história das ideias
ISBN 9788563876119