Sobre a amizade – Montaigne traça um elogio à troca intelectual e afetiva entre amigos

Amizade como motor da sabedoria e da liberdade

Considerado o criador do ensaio como gênero literário, o francês Michel de Montaigne versou sobre os mais diversos aspectos da natureza humana em seus emblemáticos textos publicados ao fim do século XVI. Toda a sua bibliografia se mantém relevante e influente mais de 400 anos após sua morte;  poucos de seus escritos, no entanto, são capazes de tocar o leitor  contemporâneo de maneira tão intensa quanto.  Sobre a Amizade,  que tem sua atualidade  comprovada nesta  inédita  tradução que chega às livrarias pela Tinta Negra. O  volume reúne ainda outros seis textos que giram em torno de temas afins.

A escrita de Montaigne  tem  caráter altamente pessoal. Busca  nos hábitos e meios de convívio do próprio autor questões referentes à humanidade como um todo. Assim, ele utiliza como base de seu estudo acerca da amizade a relação que manteve com o também filósofo La Boétie ―  “tão inteira e tão perfeita que com certeza não se poder ler sobre nenhuma  igual e, hoje em dia, não há traço algum de sua ocorrência entre os homens” .

Calor humano, comunicação delicada

Para Michel de Montaigne, ao contrário do casamento, a amizade possui   “um calor geral e universal, permanentemente temperado e igual, um calor constante e relaxado, todo gentileza e polidez, que não tem nada de amargo nem de doloroso” . Já as relações familiares são incapazes de alimentar uma comunicação direta e recíproca, pois  “nem todos os pensamentos secretos dos pais podem ser comunicados aos filhos” .

De acordo com a  também filósofa e escritora Viviane Mosé, que assina a apresentação  desta edição, a amizade aos olhos de Montaigne “é uma experiência que marca para sempre a vida de um indivíduo, porque com ela o homem toma consciência  do quanto é humano; na doação, na negação do privado, o homem vive a plena experiência do outro”.

Trecho do livro

No fim das contas, o que chamamos comumente de amigos e amizade são apenas relações e familiaridades ligadas por algumas coincidências e comodidades, pela maneira que nossas almas cuidam umas das outras. Na amizade da qual falo, elas se misturam e se confundem em uma mescla tão universal que elas apagam e não encontram mais a costura que as uniu.
(p. 30)

Em “É loucura julgar o verdadeiro e o falso por nossas capacidades” , Montaigne se dedica a explicar o motivo pelo qual acredita que o conhecimento pleno é uma ilusão. Ele aponta a amizade pura e desinteressada como o alicerce de toda a sabedoria. Essa questão é retomada em  “Sobre a arte de conversar”,  ensaio  no qual desenvolve a ideia da necessidade da comunicação e chega a afirmar preferir perder a visão a seu poder de falar e de ouvir.  Quando alguém me contradiz, isso chama minha atenção e não provoca minha ira. Eu me aproximo do homem que me contradiz: ele está me ensinando , opina.

Michel de Montaigne escreve ainda  “Sobre o ócio” ,  “Sobre a afeição dos pais pelos filhos”, “Sobre a moderação”  e sobre  “Por que só devemos julgar nossa felicidade depois de nossa Morte” . Em todos os ensaios  que compõem  Sobre a  Amizade, nas palavras de Viviane Mosé, Montaigne   “nos remete à experiência da troca intelectual, afetiva, humana, que, sem ter como finalidade perdas ou ganhos, nos acena para o domínio da plenitude e da liberdade” .

Sobre o autor

Michel de Montaigne (França, 1533-1592)  é considerado o criador e o maior representante do gênero literário  ensaio. Conhecedor e estudioso de  idiomas, entre eles o latim e o grego, avesso a fundamentalismos, mas afeito à monarquia, Montaigne se notabilizou através de sua obra maior, os  Ensaios, em que analisa instituições e dogmas do seu tempo, dotado de singular personalidade e estilo.

Informações bibliográficas

SOBRE A AMIZADE
MICHEL DE MONTAIGNE
APRESENTAÇÃO | VIVIANE MOSÉ
Trad. Carolina Selvatici
12,5 x 15cm, 208p.
Filosofia, comportamento
ISBN 9788563876287

O que quer de mim, amor? Intensidade e paixão pela vida permeiam os contos do premiado Manuel Rivas

Intensidade e paixão pela vida permeiam os contos do premiado Manuel Rivas  

Entre o amor e a solidão, personagens vão em busca de encontros e experiências significativas 

O que quer de mim, amor?  é um dos  livros mais expressivos do escritor e jornalista espanhol Manuel Rivas. Considerado o principal representante da literatura galega contemporânea, recebeu o Prêmio Nacional de Narrativa por esta obra, que reúne 16 contos em que o amor e os sentimentos são explorados de forma profunda. A narrativa é delineada por palavras ternas, ritmo e sensibilidade marcantes.

Característica expressiva nos contos é a forma como o autor transpõe o cotidiano para a literatura, retratando as emoções a partir de encontros e desencontros. A temática de Rivas rompe as barreiras geográficas e cria sensação de semelhança ao abordar tópicos e inquietações universais, como paixão, perdas e descobertas. Os personagens expõem seus pensamentos íntimos e desejos.

Rivas explora as relações de amor paterno, materno, filial, amor carnal, amor pela música, pelo futebol, amor pelo ofício. Os textos valorizam as relações familiares, sem  temer demonstrar felicidade e entusiasmo. Há referências a ícones espanhóis, como, por exemplo, no esporte – o Deportivo de La Coruña –, e na música – o cantor Julio Iglesias e os ritmos pasodoble e bolero –, além de obras de arte – como o quadro A leiteira, de Vermeer.

Trecho do livro

 ’Hoje o professor disse que as mariposas também têm língua, uma língua fininha e muito comprida, que fica enrolada como a mola de um relógio. Ele vai mostráela para nós com um aparelho que deve chegar de Madri. Não parece mentira que as mariposas tenham língua?’

‘Se ele diz, é verdade. Muitas coisas parecem mentira e são verdade. Você está gostando da escola?’

‘Muito. E ele não bate. O professor não bate.’

Não, o professor Gregorio não batia. Pelo contrário, quase sempre sorria com sua cara de sapo. Quando dois alunos brigavam durante o recreio, ele os chamava, ‘os dois parecem carneiros’, e fazia que apertassem as mãos. Depois os sentava lado a lado, na mesma carteira. Foi assim que conheci meu melhor amigo, Dombodán, grande, bondoso e desajeitado. Havia outro garoto, Eladio, que tinha uma pinta na bochecha. Eu o teria surrado com prazer, mas nunca fiz isso por medo de que o professor me mandasse apertar a mão dele e que me tirasse do lado do Dombodán. O jeito que o professor Gregorio tinha de mostrar que estava muito zangado era o silêncio.  (p. 21)

A língua das mariposas: a Guerra Civil Espanhola adaptada para o cinema

Destaca-se entre os contos  A língua das mariposas, texto carregado de emoção que aborda a relação entre um garoto e seu professor, um inquieto amante da natureza. Os dois  se tornam companheiros de  expedições, mas são  obrigados a se afastar com a eclosão  da Guerra Civil  Espanhola, quando o professor é acusado de republicanismo e subversão.

A história foi transformada em filme, com título homônimo, pelo cineasta José Luis Cuerda. Woody Allen afirmou que A língua das mariposas é  uma obra que faz pensar e que toca fundo.

Sobre o autor
Manuel Rivas  nasceu em La Coruña, Espanha, em 1957, e é um dos mais aclamados autores da literatura espanhola. Jornalista e escritor reconhecido internacionalmente, um dos fundadores do Greenpeace Espanha, desde muito jovem trabalhou com jornalismo e suas reportagens  e artigos  –  um  corpus  literário   –  estão reunidos em El periodismo es un cuento (1997 , Mujer en el baño (2003  e A cuerpo abierto (2008 . Também escreveu poesia, como a antologia El pueblo de la noche  (1997  e  La desaparición de la nieve  (2009 . Como narrador, entre outras  obras, publicou  Un millón de vacas  (1990 ,  Prêmio da Crítica Espanhola, e  Los comedores de patatas (1992  – ambas reunidas em El secreto de la tierra (1999  –, En salvaje compañía (1994, Prêmio da Crítica Galega, El lápiz del carpintero (1998 , Prêmio da Crítica Espanhola e Prêmio da Seção Belga da Anistia Internacional, além dos volumes de contos Ella, maldita alma (1999 , La mano del emigrante (2001  e  Las llamadas perdidas  (2002 , e a obra dramática  El héroe  (2006 .  O que quer de mim, amor?, Prêmio Torrente Ballester e Prêmio Nacional de Narrativa, é agora publicado no Brasil pela Tinta Negra Bazar Editorial, que vai lançar  também o romance  Los libros arden mal, considerado uma das grandes obras da literatura espanhola, vencedor do Prêmio Nacional da Crítica em Galego e do Prêmio Livro do Ano. Manuel Rivas escreve para o jornal El País.

Informações bibliográficas

O QUE QUER DE MIM, AMOR?
MANUEL RIVAS
Trad. Elisa Martins
16x 23cm, 128p.
Literatura espanhola, contos
ISBN 9788563876041

Sogras: personagens tão ambíguas quanto surpreendentes

Médica inglesa apresenta histórias e curiosidades relacionadas a sogras famosas e anônimas de todos os tempos

No imaginário ocidental, elas têm sido foco de temor, irritação, chacota e até ódio. Em diferentes culturas, o desconforto ronda a nomenclatura “sogra”, eternizada como vilã em potencial desde os contos de fada até os blockbusters contemporâneos.

O papel das sogras nas sociedades de todos os tempos, porém, é muito mais complexo do que os estereótipos podem fazer supor. E exemplos não faltam. Foic om essa premissa que a médica e escritora inglesa Luisa Dillner, colunista do The Guardian, decidiu pesquisar como as sogras têm sido vistas por diferentes culturas, ao redor do mundo e no decorrer dos séculos. Em uma investigação inusitada, incluindo nomes como Marylin Monroe, Edgar Allan Poe, Virginia Woolf e a princesa Diana, a autora levantou histórias peculiares sobre as mães de seus  parceiros.

O resultado é O livro das sogras: Uma celebração. Os capítulos dão conta de histórias de quem amou e de quem odiou suas sogras; descrições de rituais, tratamentos e as mudanças de comportamento que têm pautado a complexa relação entre genros e sogras; e tudo o mais relacionado ao tema: relatos de noras felizes com suas sogras, poemas e canções sobre o tema, receitas como o coquetel e a canja da sogra, dicas para ser uma boa sogra e como estas são chamadas em diferentes línguas mundo afora.

Estão lá causos e curiosidades sobre as sogras desde a mitologia romana (Vênus ficou muito enciumada ao ver seu filho encantado pela beleza de Psiquê) até a era digital, onde a internet se tornou ao mesmo tempo campo de batalhas e mural de elogios para sogras e noras.

Trechos do livro

“A história está cheia de citações de sogras que subestimaram os genros. A sogra do compositor norueguês Grieg comentou sobre ele: ‘Ele não é nada e não tem nada, e escreve música que ninguém quer ouvir’.O primeiro encontro entre a sogra e a nora é também matéria-prima de lendas por ele poder determinar o rumo do relacionamento. Foi com essas preocupações em mente que a atriz de cinema Marilyn Monroe foia presentada à mãe do dramaturgo Arthur Miller, de quem já estava noiva. O casal foi jantar no pequeno apartamento da sra. Miller, no Bronx, e Marilyn estava sedando bem com a futura sogra. Porém, um pouco antes de saírem, ela precisou ir ao banheiro. Havia apenas uma porta fina entre a sala de estar e o banheiro, então, para evitar o constrangimento de eles a ouvirem no outro cômodo, ela abriu as torneiras da pia. Ao sair, eles se despediram e, no dia seguinte, Arthur telefonou para a mãe e perguntou: ‘Gostou dela?’.E ela respondeu: ‘Ela é doce. Uma garota maravilhosa, mas urina como um cavalo!’.”(p.28)

Leia o 1º capítulo

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Casos de amor e ódio

Na contramão do que prega o senso comum, Luisa Dillner mostra que há na História inúmeras provas de amor, por vezes incondicionais, entre sogras e genros. Edgar Allan Poe, por exemplo, nutria tanta adoração por sua sogra que, em sua ausência, escreveu cartas desesperadas de saudade, e em uma delas chegou a declarar –“a amo mais do que 10mil vidas”; acabaram enterrados lado a lado. E o poeta inglês John Keats morreu jovem demais (com apenas 24 anos) para se casar oficialmente com a bela Fanny, mas foi a mãe desta quem cuidou de sua tuberculose.

Por outro lado, há registros de repulsa por toda parte. Os  korawais, em Papua Nova Guiné, não podem entrar no campo de visão de suas sogras, e vice-versa; a comida de ambos é preparada separadamente, e não é permitido que dividam louças e talheres entre si. Em Delhi, o Supremo Tribunal determinou que um marido pode se divorciar de sua mulher se esta se recusara conviver harmoniosamente com a sogra. Enquanto isso, na Itália, as sogras estão sendo acusadas pelo aumento das separações: uma pesquisa divulgou que a taxa de divórcio aumentou em quase 50% entre 2000 e 2002 e que há registros de que três em dez casamentos fracassaram por causa da ligação íntima incomum dos homens italianos com suas mães.

Vilãs ou santas, alvos de antipatia ou de gratidão infinita, o que a obra de Luisa Dillner confirma, com suas inúmeras histórias saborosas e polêmicas, é que existem sogras de todo o tipo. Em comum, porém, um traço inconteste: não passam despercebidas. Impossível olhá-las do mesmo jeito depois da leitura deste livro.

A autora

A médica e escritora inglesa LUISA DILLNER é colunista de  The Guardian  e foi diretora de publicações do British Medical Journal Publishing Group. Colabora para vários jornais e revistas, como Vogue, Cosmopolitan e Observer. A maternidade é um tema recorrente em seus textos que, não raro, são considerados fonte de ideias inovadoras. A autora vive em Londres, com seus quatro filhos.

Dados bibliográficos

O LIVRO DAS SOGRAS
Uma celebração
LUISA DILLNER
Trad. Lourdes Sette
14x 21cm, 320p.
Não ficção, comportamento, cultura, relacionamentos familiares
ISBN 9788563876171

Quando a música encontra a literatura: uma viagem por várias gerações

Música e Literatura: uma viagem por várias gerações

Jovem autora espanhola surpreende ao mostrar o encontro entre um professor e sua ex-aluna

De Música Ligeira  apresenta as características de um autêntico livro  contemporâneo, representado pela narrativa não linear, repleta de personagens que vêm e vão, às vezes, atormentados por seus conflitos. Como panos de fundo estão movimentos musicais e sociais como o grunge, rock e punk, que influenciaram de forma decisiva a maneira de pensar e agir dos jovens dos anos de 60, 70, 80 e 90. Apesar dos 21 anos de idade, a escritora espanhola Aixa de La Cruz surpreende ao apresentar um texto maduro, em que os personagens se afastam da aura adolescente, sem deixar de lado os questionamentos pertinentes ao crescimento e a autodescoberta.

Dylan, um professor de piano, autista, e Julia, sua ex-aluna, encontram-se por acaso num pub de Madri e, de forma casual, dividem suas memórias e aflições. Para ambos os personagens, a música tem impacto e influência direta na forma de agir e pensar, especialmente, para o professor, que foi batizado como Bob Dylan pelo pai, fascinado pelo cantor. Sua dificuldade de se comunicar por meio de palavras resulta num mutismo, que é superado com a ajuda de seu dom de tocar piano.

No livro, destacam-se também temas recorrentes, como a relação dos protagonistas com a solidão, a aceitação social, o abuso do álcool e das drogas para representar a inclusão em algum movimento que exige tais comportamentos. A autora enfoca o papel fundamental que a música exerce como modeladora de identidade, atuando no resgate de memórias e solução de problemas. A música, desde Bob Dylan, Sex Pistols, Nirvana, Beethoven  a  The SmithsDire Straits e Madonna, acompanha os diálogos a fim de demarcar sentimentos e épocas.

Trechos do livro

“Miguel, pai de Dylan, nasceu em 1948, ano que a AMPEX lançou suas fitas magnéticas de gravação editável. Seus pais escutavam Beethoven em um gramofone Victrola, com discos de goma-laca de 78 rotações em que o barulho podia ser confundido com os aplausos da plateia. Entrou na universidade em 65, quando  ‘Like a Rolling Stone’ começava a tocar em todas as rádios e dividia o público de Bob, que comparecia toda noite, religiosamente, a seus shows metade folk, metade ‘barulho’, para vaiar quando ele surgia na guitarra. Mas batizou seu filho com o nome de Dylan no verão de 69, quando ninguém mais falava de traição, conseguindo assim fugir de todas as discussões.” (p. 17)

“Penso em Julia, que nasceu sem passado em um bar irlandês chamado Twelve O´Clock. Era um desses pubs escuros com listéis de madeira na parede e anúncios de uísque Jameson dos vinte anos. A ideia de não saber muito bem quem ela é me agrada. Agora mesmo, seus olhos brilham por causa da cerveja, e ela lembra uma dessas meninas que gritam obscenidades para Axl Rose na saída de um show. Mas duvido que seja fã do Guns N´Roses. Nos anos noventa, todas as amigas da moça choraram a morte de Kurt Cobain.” (p. 18)

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Onipresente, a narradora  desenvolve um texto metalinguístico na medida em que apresenta os quatro personagens principais  –  Dylan, Miguel, Julia e Aurelio.  Ela explica aos leitores a forma como os compõe e as influências sofridas que resultaram na personalidade de cada um deles. “Acabo de criar a Julia sentada, mas posso imaginá-la de corpo inteiro. A imagem cabe perfeitamente em um vagão de metrô que a leva direto para casa”, exemplifica.

Influenciada pelo movimento Generación Nocilla, difundido na Espanha entre os anos de 60 e 70, Aixa de la Cruz explora a fragmentação textual, entrecortando a narrativa por meio de artigos jornalísticos, flashbacks e diálogos. A estrutura aberta do texto não permite ao leitor saber quando a história apresentada começou ou como ela irá terminar. Um recurso de transgressão literária oferecido é a personagem Estelle,  que surgiu da adaptação livre da personagem Estella, criada por Charles Dickens em Grandes esperanças.

A linguagem acessível, as construções gramaticais simples e o uso de elementos simbólicos socialmente reconhecidos como determinantes de uma geração  –  os videogames Atari e Nintendo, o LP, a vitrola ou a música God  save the queen, dos Pistols –  tornam o livro interessante para diversos públicos.

Cada capítulo de  De Música Ligeira  envolve o leitor e proporciona uma viagem  às décadas passadas que, por meio da música, se mantêm vivas no presente, influenciando os jovens de hoje.

A autora

AIXA DE LA CRUZ (Bilbao, Espanha, 1988) publicou Cuando Fuimos los Mejores, finalista do prêmio Euskadi de Literatura 2008. Foi bolsista da Fundação Antonio Gala, voltada para jovens criadores. De Música Ligeira é seu segundo romance, o primeiro publicado no Brasil.

Estrevista com Aixa de la Cruz

Tinta Negra: Você é uma jovem escritora de 21 anos, casada, tem dois livros publicados, além de um texto de dramaturgia. Sua literatura é bastante madura e repleta de referências clássicas. Ao que você atribui seu desenvolvimento quase precoce?

Aixa de  la Cruz: É conveniente para as sociedades capitalistas envelhecidas que a adolescência se prolongue até os 30, ou, se possível, indefinidamente. As pessoas invejam os vampiros de Crepúsculo, condenados a transitar eternamente pelo high school. Para mim a ideia parece grotesca. Em vez de ser vampiro, me concentrei em ser escritora durante os últimos anos. Suponho que aí esteja a diferença.

TN:  É possível definir  De Música Ligeira  como um livro pós-moderno? Você pode explicar quais as principais características de sua narrativa?

AC: Lady Gaga, que tem mais ou menos a minha idade, ri do pós-modernismo. Acho que esta década que se inicia vai sepultar definitivamente esse conceito. Concordo que De Música Ligeira  tem uma estrutura que evita a linearidade, é fragmentada, joga com diferentes tipos de discurso… mas quando escolhi essa forma o fiz pensando em uma partitura e em como se comportam distintas vozes dentro de uma determinada harmonia. Ainda estou em fase  de experimentação, buscando um estilo narrativo com que eu realmente me identifique. As peculiaridades formais em De Música Ligeira são adequadas para o texto e sua temática, mas ainda não são definitivas no meu projeto literário a longo prazo.

TN:  O livro tem a música como um dos personagens principais. A todo o momento, faz referência às bandas representantes do movimento grunge, rock e, especialmente, o movimento punk.  Qual a importância do cenário musical na construção da sua literatura?

AC: Neste romance a música é, entre muitos outros papéis, uma ferramenta de caracterização. Uma das coisas que mais me atraem no rock clássico é que durante o século XX soube evoluir, ao mesmo tempo que as revoluções sociais, de maneira que marcou e delimitou grupos urbanos. Não há muita dificuldade em situar um personagem nos anos  70  ou  80  e adivinhar quais são suas origens e inclusive suas ideologias pelo tipo de música que ouve. Por outro lado, a presença obsessiva da música neste romance obedece a motivos pessoais, já que, assim como Dylan, também sou pianista,mas ao contrário dele, nunca deixei de ser medíocre. De todo modo, a ideia que serviu de pontapé para o livro tem a ver com a doença: li sobre a afasia de doentes com graves lesões que não podiam articular nenhuma linguagem, mas que,  no entanto,  eram capazes de cantar versos com fluidez. Quando você lê uma partitura e vê que o silêncio tem seu próprio símbolo por escrito, entende por que este não se opõe à música. Esta aparente contradição música x silêncio tem muito peso em De Música Ligeira.

TN:  Dylan é um homem que optou pelo silêncio para conseguir lidar melhor com suas dificuldades de fala e de interação social. No livro, acompanhamos seu crescimento e desenvolvimento sofrido desde a infância até a vida adulta. Qual seu objetivo ao apresentar um personagem nada perfeito, doente, mas que consegue usar a música como meio de expressão?

AC: Dylan simboliza esse tópico de que o silêncio faz parte da composição da música. Gostava dessa contradição e também gostava de explorar o velho tema da incomunicabilidade sob o ponto de vista concreto, fisiológico. Já se escreveu muita literatura sobre o isolamento físico e voluntário, mas o que acontece quando as palavras não são um dom neurológico? Os humanos se sentem especialmente orgulhosos desse grau de evolução de que se desenvolveu nossa glote e houve mudanças necessárias para que a linguagem aparecesse. É essa a característica que nos faz animais sociais e que nos singulariza como nenhuma outra. Por isso, talvez,  temos uma atitude soberba em relação aos sistemas de comunicação alternativos. Quando Dylan decide não falar, quando prefere se adaptar à linguagem de sinais ou inventar um novo método de base musical, ele está desprezando os pilares de toda uma civilização. Vai além da doença; propõe que o mutismo possa ser uma eleição de princípios.

TN:  Quem é a escritora Aixa de La Cruz, uma jovem adulta que surpreende ao ter como preferências pessoais, ídolos, ideais tão opostos aos da juventude atual?

AC: Não, não é possível, estou em processo de desaparecimento e recebo ameaças dos criadores do Facebook por ainda não ter um perfil.

TN: As notícias que chegam da Espanha não nos dizem muito da diversidade cultural e da produção cultural do País Basco. Como é a literatura, a música, a cultura basca hoje?

AC:  A literatura basca goza de boa saúde, com um mercado editorial forte e muitos autores que escrevem em euskera e são conscientes de estar contribuindo para a revitalização de uma língua minoritária e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento de uma literatura que em sua forma escrita é muito jovem ainda. O bom de não ter uma tradição nacional forte por trás é que a liberdade acaba sendo maior. Noto, entretanto, que muitos autores bascos encontram/encontramos esses referenciais  clássicos num legado anglo-saxão, mais do que na tradição espanhola ou francesa. Isso também se nota na música; o rock e, sobretudo, o punk de corte britânico tiveram vital importância na Euskadi dos anos 70 e 80, e continua tendo impacto hoje, embora a oferta seja muito variada e se afaste das etiquetas fáceis.

Dados Bibliográficos

DE MÚSICA LIGEIRA
AIXA DE LA CRUZ
16 x 23cm, 208p.
Literatura estrangeira, cultura, música, comportamento
ISBN 9788563114167