Um minucioso retrato da sociedade brasileira do Segundo Reinado

Ubiratan Machado retrata a história cultural de um período essencial para o entendimento da complexa relação entre literatura e vida social no país

Em 1820, o comércio livreiro ainda engatinhava no Brasil. Quem fosse a uma das únicas quatro livrarias do Rio de Janeiro, encontrava de tudo – tinta, rapé, chás e porcelanas. Livros, porém, eram escassos, e limitados à esfera de novelas populares e manuais de devoção. A efervescência de salões literários e a boêmia, por conseguinte, eram coisa de outro mundo –nestas terras, o hábito era dormir com as galinhas.

A situação começou a melhorar a partir de 1840, quando d. Pedro II, ainda menino, assume o trono. A paixão do imperador pelas letras, associada ao encurtamento da distância com a Europa – com o surgimento do telégrafo elétrico, entre outras transformações – foi decisiva para a valorização da literatura nacional. Nada disso, porém, anulava o menosprezo e a desconfiança com que poetas e romancistas eram vistos pelos comerciantes e pela burguesia.

A vida literária no Brasil durante o romantismo é um vigoroso estudo sobre a afirmação da literatura no contexto do Segundo Reinado. Ubiratan Machado recria os principais aspectos do ambiente intelectual brasileiro em uma época imprescindível para se compreendera complexa relação entre literatura e sociedade no país. Com isso, cria não apenas um retrato da esfera literária, mas, sobretudo, faz uma deliciosa descrição dos padrões de comportamento da sociedade da época.

Trechos do livro
“As primeiras gerações românticas iniciaram a tradição dos escritores se reunirem em livrarias, transformadas quase em clubes de bate-papo literário, com livre trânsito para fofocas, algumas maldosas, leitura de poemas, elogios mútuos e consulta regalada às últimas novidades chegadas de Paris.

Esse prazer, desconhecido das gerações anteriores, afirma-se nos anos 1830, em sinal inequívoco de estabilidade da vida do país e de enriquecimento de sua vida intelectual. Pode-se dizer, parodiando uma máxima da belle époque, que o Brasil civilizava-se. Um quadro muito diferente do que predominara até o início da década anterior.”(p. 67)

Com uma pesquisa abrangente e detalhada, o autor aborda a emergência, enfim, de um público nacional para as letras; o nascimento da vida literária em livrarias, cafés e confeitarias; a popularização da poesia; o surgimento da crítica; a modernização das bibliotecas e a consagração dos salões. Além disso, lança luz sobre personagens-chave neste processo, como o editor Paula Britto e o próprio imperador. Esmiúça como os estudantes e as mulheres, que viviam suas primeiras aventuras de libertação, foram essenciais para a consolidação do público leitor brasileiro. E, ao narrar a evolução do mercado editorial no país, chega a minúcias como o valor exato pago por romances como O guarani e A moreninha.

Diante de tudo isso, as anedotas referentes ao período não ficam de fora. Ubiratan Machado resgata figuras como o frei Bastos Baraúna, religioso que entoava as mais arrebatadoras homilias quando se encontrava recém-saído da cama de meretrizes ou das mesas de jogo. Ou como o mórbido Tibúrcio Antonio Craveiro, autor da primeira tradução de Byron no Brasil.

Segundo os relatos da época, o escritor teria sua casa decorada com aparelhos de tortura, múmias e gravuras macabras. As paredes seriam salpicadas de sangue; sua mesa de trabalho, uma lousa de mármore negro, retirada da sepultura de uma donzela.

A vida literária no Brasil durante o romantismo retorna às prateleiras em reedição revista e ampliada, com projeto gráfico totalmente reformulado. Um roteiro ilustrado integra o volume, com uma seleção de desenhos, caricaturas e litogravuras que representam bem a época. Estão lá, por exemplo, as imagens da Semana Ilustrada, publicação de destaque no período romântico, e de periódicos como Vida Fluminense e o raro Bazar Volante.

O autor
Ubiratan Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1946. Jornalista, escritor e tradutor, estreou na literatura com Os intelectuais e o espiritismo. Publicou ao todo 18 títulos, entre os quais Machado de Assis, roteiro da consagração, A etiqueta de livros no Brasil, Dicionário de Machado de Assis e  Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras. Recebeu da Academia Brasileira de Letras a medalha João Ribeiro, por serviços prestados à cultura brasileira.

Contos mais que mínimos

Retratos de corpo inteiro em apenas 500 caracteres

 

Coletânea de microcontos de Heloisa Seixas aborda, de forma intensa, temas como amor, solidão, literatura, fantasmas e o universo

 

Contos mais que mínimos - Heloísa SeixasDurante dois anos, a jornalista e escritora Heloisa Seixas dedicou-se a escrever contos marcados pela concisão extrema. Criava, duas vezes por semana, histórias de um parágrafo, pouco mais de 500 caracteres, seis linhas e meia na tela do computador. Era o material de sua coluna na Folha de S.Paulo, chamada, não à toa, Contos Mínimos. Mais tarde, a autora ganhou um novo espaço na revista Domingo do Jornal do Brasil, onde permaneceu nos oito anos seguintes.

 

Contos mais que mínimos reúne 60 microtextos dos seus anos como colunista da Folha, e ilustrados com linoleogravuras de André Beltrão. As histórias, de temas como amor, solidão, literatura, fantasmas e o universo, refletem uma enorme capacidade de dizer muito em pouquíssimo espaço. São cheias de surpresas, reflexões, fantasias, tragédias, lirismo. Por vezes, aproximam-se da crônica. Algumas são relatos em primeira pessoa e, não raro, representam recortes afiados do espaço urbano contemporâneo, com suas idiossincrasias e contradições.

 

Apesar de habitarem espaço tão curto, os personagens são intensos. Alguns, famosos: o escritor americano Paul Auster, retratado em seu susto diante da queda do Muro de Berlim; o brasileiro Carlos Heitor Cony; o filósofo francês André Glucksmann; o poeta mexicano Octavio Paz. Mas, em sua maioria, são anônimos solitários, personagens que compõem o mosaico dos vários cotidianos das cidades, presos na labiríntica angústia do dia a dia.Como o personagem que, numa linha telefônica cruzada, captura um grito —para em seguida perdê-lo para sempre.

 

Ou a mulher de branco que enfrenta um temporal em Ipanema. Ou aquela que escreve, em teclas cor de marfim, uma carta de adeus. São as mulheres, afinal, as protagonistas por excelência destes microcontos, nos quais prevalece, sempre, o universo “sombrio, assombrado, às vezes louco” de Heloisa Seixas.

 

A autora

Jornalista e escritora, Heloisa Seixas nasceu em 1952, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Estreou na ficção em 1995, com o livro de contos Pente de Vênus. Lançou, ao todo, mais de 10 títulos, por diferentes editoras, entre romances, infantojuvenis e textos curtos. Também participou de diversas antologias. Foi três vezes finalistas do prêmio Jabuti, e agora também trabalha em um outro campo da criação: a dramaturgia.

 

Trechos do livro

“Quantos segundos você levará para ler o que está escrito aqui? Vinte, trinta, quarenta segundos? Um minutos, talvez, se estiver distraído e em algum ponto tiver de recomeçar? Dez segundos, se começar a ler e, desinteressado, desviar os olhos deste espaço onde alguns tolos insistem em deixar seus rastros? Quanto tempo?

 

A vida é assim, feita de pequenos conjuntos de segundos, frações de tempo sobrepostas, mínimas como o espaço de tempo que se leva para ler isto aqui. E de repente, lá está: trinta, quarenta, sessenta —e os segundos se transformam em anos.”  (p. 93)

 

 

 

 

Dados bibliográficos

CONTOS MAIS QUE MÍNIMOS
HELOISA SEIXAS
13,5x 18,5cm, 96p.
Literatura brasileira, conto
ISBN 9788563114013

Lugar – A palavra como própria geografia

Lugar, romance de estreia de jovem escritor premiado, passeia por quatro gerações de uma família atordoada pela recusa da memória   

Num espaço sem nome —chamado pelo próprio autor de “um lugar que não é lugar nenhum” —, quatro gerações de uma mesma família convivem com a recusa da memória. Suas histórias, perdidas numa angustiante impossibilidade discursiva, perecem eclipsadas. Mergulhadas neste não-dizer, as personagens experimentam relações atrofiadas e nebulosas.   

Lugar é o romance de estreia de Reni Adriano.Foi com o livro que o mineiro radicado em São Paulo, de apenas 28 anos, conquistou o Prêmio Minas Gerais de Literatura, na categoria Ficção, em 2009. E é com ele que tem arrebatado elogios de grandes nomes da área, como os escritores Luiz Ruffato –que assina a orelha desta edição–, Cristóvão Tezza e Marcelino Freire.

 

Lugar, afinal, espraia-se na contramão de seus contemporâneos. Em vez do cenário urbano, paisagem dominante na literatura brasileira de hoje, o que aparece aqui é o arcaico dos  rincões.No lugar de tramas atravessadas por referências tecnológicas cotidianas — telefones  móveis, canais acabo, infovias —, o que permeia a narrativa é a aparição assombrada de peças  do imaginário mítico-popular brasileiro, com suas mulas-sem-cabeça, curandeiros e mata-gatos.

 

Mas é sobretudo no trabalho de linguagem que se destaca a originalidade de  Lugar. Numa prosa que se revela prima-irmã da poesia, extremamente ritmada, Reni Adriano lança mão de experimentos léxicos e sintáticos para pôr em xeque os próprios limites da palavra. “Em Lugar, há momentos em que a linguagem de repente se torna carne, se torna terra, se faz a própria geografia”, descreve o autor. “Os corpos das personagens parecem parir um dizer impossível quando elas falam. A cultura oral permite isso, essa sensação concreta da palavra. Além disso, é um dizer que jamais define a coisa apontada, é um nomear que, quando nomeia, na verdade está perguntando como se chama.”

 

Na narrativa, traçada de forma não-linear, prevalece o olhar de dois meninos: Inácio e Gaio, representantes de gerações distintas. É com a delicadeza e os sustos de sua percepção que a trama vai desnudando a violência de um cotidiano agreste, no qual a morte é presença indelével. E a estes dois protagonistas cabe a tarefa, vestida em tons fantásticos, de recolher os fiapos de sua própria história. “Minhas personagens se recusam a lembrar, e essa é a principal morte do livro. A memória vai se apagando: é o triunfo da morte”, explica Reni.

 

Lugar é um dos primeiros títulosda Tinta Negra Bazar Editorial, casa que estreia no mercado brasileiro noinício de 2010.

 

O Autor

Reni Adriano nasceu em Santa Luzia (MG), mas passou a infância em Raul Soares,na zona da mata. Ainda criança, foi para São Paulo, onde vive até hoje. Graduado em Filosofia pela PUC-SP, trabalha em programas de incentivo à leitura. Tem contos publicados em revistas e antologias, e é membro do conselho editorial da revista Laboratório de Poéticas –antenas & raízes (Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura).

 

Trechos do livro

Lugar era o proibido. Uma doença que se dobra sobre si mesma e multiplica, redobrando-se quantas vezes mais se pronuncia aquele próprio nome. Que por isso também não havia, o não havido acontecendo no silêncio que dizia a palavra calada. A palavra numa desordem de bocas se costurando de dentes pelas caudas.

Lugar que sempre crescia, ampliando projetos do ciclo, as patrolas rasgando a noite e o dia, as estradas. E lugar cada vez mais estreito, esquecido mesmo de morrer –não podia –, mudo insistindo no projeto extenso-exíguo de calar. 

 

Lugar que jamais havia e não podia haver. Onde na gente doía é Lugar. Lugar e seus colubrídeos. De raízes de gameleira arrancada a tratores, raízes expostas esguichando a água decantada nas enormeformas das plantas. Raízes-troncos que vão buscar todas fundas, agarradas, tensas, vorazes cobras.” (p. 102)

 

Dados Bibliográficos:
LUGAR
RENI ADRIANO
15,5×22,5cm, 112p.
Literatura brasileira, romance
ISBN 9788563114051