A ira da berinjelas – Sabores e sentimentos materializados em palavras

Escritora indiana cria histórias em que tempera as relações humanas com cominho, feno grego, açafrão, curry e toques de pimenta.

Bulbul Sharma aborda o amor pela comida como um elemento de libertação e conexão entre mulheres de diferentes gerações. Baseada em suas memórias afetivas, olfativas e gustativas, a autora traça um rico e saboroso painel da sociedade indiana e transforma em literatura toda a fartura de temperos e paixões servidas à mesa em uma terra de contrastes.

Nas doze histórias de Bulbul Sharma, a comida — de jantares elaborados à mais simples compota — é o principal elo entre os personagens e o insaciável mundo em que vivem. Logo no primeiro conto de A Ira das Berinjelas, “Potes de ouro”, a comida é apresentada como um bem precioso e digno de reverência. “Mantinha-se a despensa trancada e os alimentos dentro dela podiam ser vistos apenas por dez minutos às seis da manhã, às onze e então às quatro da tarde, à maneira de algumas exposições raras e de preço incalculável num museu”, escreve a autora. É dado o tom das narrativas que se seguem, nas quais, em idiossincráticos recortes cotidianos, Sharma destila sensibilidade e pitadas de ironia por meio de figuras humanas cativantes que vivenciam e reforçam  o poder transformador das ações de cozinhar, comer e falar sobre comida.

Trecho do livro

“Tinham restado apenas os domingos para se lembrar de que fora casada. Nesse dia levantavacedo, tomava um rápido banho e vestia um sári limpo e engomado. Terminava seu puja mais rápido que nos outros dias e, passando com agilidade o bindi de vermelhão na testa, seguia para a cozinha para marinar a carne. O cardápio era mais ou menos o mesmo todo domingo, pois o senhor Kumar tinha cinco ou seis pratos favoritos que eram preparados alternadamente durante o ano. Embora há muito separado da esposa a quem nunca dera importância, o senhor Kumar almoçava com ela em períodos regulares, uma vez por semana. O restante da semana comia aquilo que seu criado lhe preparava ou ia ao clube. Porém, ao chegar domingo, o senhor Kumar, como um assassino atraído de forma irresistível ao local onde havia matado sua vítima, seguia para casa para almoçar com sua mulher. Chegava pontualmente às 12h30 e não batia na porta ou tocava a campainha, já que ela sempre deixava a porta aberta. Ele se sentava e lia o jornal, enquanto ela dava os toques finais à comida. Às vezes, ele entrava no quarto que havia sido seu dormitório e verificava os armários, mas nunca tocava em nada. Nunca conversavam.”  Do conto “A ira das berinjelas”

Em histórias  como “Banquetear com a vingança” e “Comer  até morrer”,  a culinária se apresenta como um instrumento de poder. No conto homônimo ao livro, por sua vez, a refeição é o único ritual capaz de fazer com que um casamento siga tendo algum sentido.  Colecionadora compulsiva de receitas, Bulbul Sharma complementa cada narrativa com detalhes sobre o preparo de pratos e sobremesas que,  carregados da minuciosa simplicidade

Entre antigas preferências familiares, sugestões de amigos e refeições “rápidas e preguiçosas” estão iguarias como picles de manga, chutney de hortelã, pakora de espinafre, arroz de tomate e alho-poró, batatas com gergelim, peixe com iogurte, bolo de cenoura, khir de laranja e chá de mel com gengibre.

Ainda  que  com  tramas e personagens envoltos em aromas e cenários em  princípio exóticos aos leitores ocidentais, Bulbul Sharma é capaz de permear suas histórias de paixão e gastronomia com um sentimento de universalidade. A edição inclui também um glossário com as principais comidas, termos familiares, culturais, além de festas e relações religiosas abordadas em hindi ao longo do livro.

A autora

Bulbul Sharma nasceu em Nova Delhi, Índia, em 1952. Estudou língua e  literatura russa na Jawaharlal Nehru University. Escritora, artista plástica e professora de arte para crianças com necessidades  especiais, seus trabalhos estão expostos na National  Gallery of Modern Art, Lalit Kala Akademi, bem  como em coleções privadas na Índia, Reino Unido,  Estados Unidos, Japão e França. Seus livros foram  publicados em inglês, italiano, francês e finlandês. A autora teve a ideia de escrever A Ira das Berinjelas como um livro de receitas do dia a dia após publicar uma  história sobre mulheres e comida para uma antologia  internacional. Bulbul considerou essa relação tão natural que a transformou na trama central deste  livro encantador. É ela mesma quem diz:  “Quando você nasce em uma família bengali,  as mulheres estão sempre falando sobre comida. Quando está almoçando, você começa a discutir o que vai ter para o jantar”.

Informações bibliográficas

A IRA DAS BERINJELAS
Histórias de paixão e gastronomia indianas
BULBUL SHARMA
Trad. Petê Rissatti
14 x 21cm, 184p.
Literatura indiana, gastronomia, receitas
ISBN 9788563876324

 

2 respostas em “A ira da berinjelas – Sabores e sentimentos materializados em palavras

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