Nem paz nem guerra – Três décadas de conflito no Saara Ocidental.

Saara Ocidental: a última colônia africana grita pela independência

Em conflito com o Marrocos há 35 anos, os saarauis reivindicam reconhecimento

Muito perto dos países do Norte da África que protagonizam uma onda de rebeliões contra regimes despóticos está o Saara Ocidental, um território que viveu sob fogo cruzado durante dezesseis anos e, há 35, espera por solução e reconhecimento. Para compreender a realidade por trás dessa guerra esquecida, as jornalistas Giovana Moraes Suzin e Laura Daudén foram a campo conhecer os homens e mulheres que, em ambos os lados, sofrem com a espera e com a iminência de um retorno ao conflito armado. O resultado desta empreitada é o livro-reportagem

 Nem paz nem guerra – Três décadas de conflito no Saara Ocidental.

O livro traça um panorama político, econômico e, sobretudo, humano da guerra e mostra os bastidores da disputa pelo território  –  que envolve governos, organizações internacionais, ativistas e empresas. Após  analisar a evolução do conflito ao longo dos anos, as jornalistas foram em busca de respostas. Por que a Espanha abriu mão de sua colônia africana? Qual o seu papel no conflito atualmente? Quais interesses  estão  por trás das decisões políticas? De que maneira esse conflito se insere em um contexto mais amplo, de equilíbrio de forças no Norte da África? Por que a ONU não conseguiu organizar, ao longo de vinte anos de reivindicações, um referendo em que  a população possa escolher entre a independência e a integração ao Marrocos? O que motiva o silêncio da Europa e dos Estados Unidos? Qual a posição do Brasil, que assume um papel cada vez mais importante na comunidade internacional?

Vídeo feito pelas autoras contando um pouco da história do livro

Um povo dividido por um muro

Durante dezesseis anos, o Saara Ocidental viveu dias de guerra em seu território. A partir de 1991, depois da morte de milhares de pessoas e gastos incalculáveis em armamento, conseguiu-se chegar a um cessar-fogo. Durante a contenda, como forma de tentar manter a fronteira dos territórios já conquistados, o Marrocos construiu um muro de 2.200 quilômetros que até hoje divide o Saara Ocidental: 7/8 seguem sob controle marroquino; 1/8 está nas mãos dos saarauis. Nesta última região, chamada de Zonas Liberadas, ainda há nômades – que ziguezagueiam entre milhares de minas terrestres  –  e soldados  do exército saaraui. Mais a oeste, já dentro da fronteira argelina, estão cinco acampamentos  de refugiados. Ali, na região mais inóspita do deserto, sobrevivem cerca de 200 mil pessoas.

Trecho do livro

“Brahim Sabbar tinha 20 anos quando foi capturado, em 1981, com mais de setenta pessoas, entre elas mulheres, crianças e idosos. Ele foi acusado de criar novas células da Polisário e de distribuir panfletos e bandeiras através da Associação de Belas-Artes e Teatro que tinha na cidade de Dakhla. Nunca foi julgado. Nos seis primeiros meses em que esteve preso, foi torturado e passou o tempo todo com olhos vendados e mãos atadas. O pior, para Sabbar, foi ouvir o som de outros sendo torturados, principalmente de mulheres. Foi transferido para diferentes prisões e não tinha contato com o mundo exterior. Em uma delas, se encontrou com prisioneiros que haviam sido detidos em 1975 e que já eram considerados mortos. […] todos os exLdesaparecidos denunciam as condições sanitárias nas prisões, e alguns têm  até hoje  enfermidades crônicas provocadas pela situação. O Marrocos reconhece que 52 prisioneiros morreram enquanto estavam encarcerados. Há ainda 534 pessoas desaparecidas.” (p. 99-100)

As jornalistas conversaram com essas pessoas e também com aquelas que seguem no território controlado pelo Marrocos. Elas descobriram que, depois de tanto tempo, em ambos os lados do muro, permanece o desejo de ser parte de um país reconhecido. O registro fotojornalístico que acompanha o texto registra os hábitos, costumes, casas e ruas do Saara Ocidental, assim como as regiões desérticas onde a paisagem é cortada por milhares de moradias. Estas,  por causa da esperança que se renova há  anos, ainda são improvisadas,  como se o dia de voltar para casa sempre fosse amanhã. A precariedade do cotidiano, no entanto, não tem mais valor do que os sonhos e dilemas que se escondem por trás de cada rosto retratado.

“Nem paz nem guerra”

Nem paz, nem guerra. Essa é a maneira como os saarauis se referem a esse longo período de indefinições que se estende desde o cessarMfogo até os dias de hoje. O conflito armado já não existe, mas nenhum acordo de paz ainda foi assinado. A violência, no entanto, continua: tem a cara dos protestos que acontecem com frequência no território sob controle do Marrocos; tem a cara das milhares de minas terrestres que ainda contaminam o solo do lado dos saarauis. A violência também paira  nos campos de refugiados, onde a indignação cresce na medida do sofrimento e o retorno às armas está na boca dos jovens que ainda não viram o resultado da diplomacia.  A ONU considera o Saara Ocidental um território não autogovernado, mas não reconhece a república fundada no exílio em 1976. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia reconhece que a ocupação do Marrocos é ilegal. Na região dos acampamentos, na Argélia, a população desenvolveu uma forma própria de organização, numa espécie de  parlamentarismo tribal. Possuem  um presidente e realizam assembleias, mas alguns órgãos  internacionais denunciam a longa permanência dos mesmos representantes no poder.

Todas as crianças são alfabetizadas e, ao ingressarem no  ensino  médio, têm a possibilidade de concluir os estudos nos países que apoiam a independência, como Cuba, Qatar, Argélia,  Líbia. Existem também escolas especiais para crianças com deficiências físicas ou mentais. As mulheres, apesar da tradição de usarem roupas que as cubram da cabeça aos pés, têm autonomia para participar de todos os setores da sociedade, inclusive o político. A única tarefa exclusiva dos homens é a de pegar nas armas.

Além da sensação de conflito iminente,  os nômades e os refugiados  enfrentam desnutrição, já que não dispõem de alimentação suficiente. E dependem inteiramente do recebimento de doações feitas por organizações não governamentais.

 As autoras

GIOVANA MORAES SUZIN é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e em história pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). É repórter da Editora Abril.

LAURA DAUDÉN cursou jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e é mestre em relações internacionais e estudos africanos pela Universidad Autónoma de Madrid. É repórter da revista  IstoÉ  e colaboradora da revista espanhola Pueblos.

Informações bibliográficas

NEM PAZ, NEM GUERRA
Três décadas de conflito no Saara Ocidental
GIOVANA MORAES SUZIN E LAURA DAUDÉN
14 x 21cm, 232p.
Reportagem, relações internacionais, política externa
ISBN 978-85-63114-15-0

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