Filosofia: combustível para a realidade

Numa divertida viagem pela História, livro revela o que está por detrás de ideias como a moeda, o relógio, a economia ou a lógica.

Quando despertamos de manhã, não é comum  nos perguntarmos  por que o nosso tempo é dividido em fatias e organizado num mecanismo chamado relógio. Também não costumamos indagar como um simples pedaço de papel – chamado “dinheiro” – pode ser mais valioso do que uma outra amostra do mesmo material  –  uma folha em branco, por exemplo.  Isso porque o relógio e o dinheiro, tão presentes em nossas vidas, acabam parecendo elementos da natureza, coisas que sempre estiveram ali. Pensamos neles  automaticamente. E, por isso mesmo, têm tanta força: são ideias projetadas em nossas mentes desde  que nascemos, e  as quais naturalizamos, sem nos perguntarmos como e por que surgiram.

Mas o que há por detrás dessas  invenções? Pequena história das grandes ideias: Como a filosofia inventou  nosso mundo  é um convite a observar com olhos curiosos essas “ideias escondidas” no cotidiano, elaborando perguntas obscurecidas pelo hábito. Porque tanto a moeda quanto o relógio  foram  inventados, nasceram de pequenas ideias que, por diferentes motivos, acabaram fazendo mais sucesso do que outras, e ajudando a mudar o mundo ao seu redor. Em comum entre elas, a necessidade de estarem atreladas à imaginação humana para existirem e se manterem vivas, uma vez que, na prática, são impalpáveis.

Trecho do livro

“Quando estamos diante do espelho ou passamos manteiga num pão, a filosofia não incomoda mais, só vem à tona quando as pessoas num repente estão sob os holofotes e precisam dizer algo importante. Então chega a pergunta que faz o suor escorrer pela testa, que deixa  a boca seca. Mas a verdade é que considerar a mensagem mais importante constitui o pior dos erros. As ideias realmente grandes da filosofia são formadas a priori durante a nossa vida — não raro de forma inconsciente. Quem, por exemplo, atormenta as crianças na escola e as obriga a aprender coisas totalmente inúteis? Constitui uma lei da natureza uma criança de 12 anos com uma mochila gigantesca nas costas ir para uma escola gelada para memorizar conjugações verbais?

Não, inclusive a escola não é nada mais que uma ideia aplicada, ou seja, a fantasia que depende da formação de cada ser humano (e por motivos misteriosos inseriufse aqui a opinião de que a conjugação verbal é um meio comprovado para formarmos advogados eficientes). Olhando bem de perto se vê que muito do que se considera óbvio existe apenas por essa fantasia — ou, mais exatamente, existe porque todos acreditamos nela.” (p. 9)

Filosofia: combustível para a realidade

Para compreender essas invenções fundadoras, é preciso aceitar o convite primordial da filosofia, e também olhá-la com novos olhos. O alemão Martin Burckhardt nos incita a fugir do estereótipo de que para entender a filosofia é preciso recorrer às prateleiras das bibliotecas. Pelo contrário:  à  la  Sócrates, o autor propõe enxergar a curiosidade como matéria-prima original da filosofia. E deixar-se, então, enredar pelo seu jeito instigante de vasculhar a História e fazer perguntas do tipo “proibidas” – num jeito que lembra o  clássico O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder.

Num estilo bem-humorado e ágil, lançando mão de referências que vão da cultura erudita à pop  – Aristóteles, Virgem Maria, Freud, Monty Python e Steve Jobs estão no rol de personagens citados –, Burckhardt tenta responder a questões como essas. Revela, por exemplo, que a ideia de ginásio, esse espaço ao qual confiamos o tempo de nossos filhos, teve origem na palavra grega  Gymnos, que quer dizer  nu  –  e, quando imaginamos um ginásio grego, é totalmente apropriado imaginar uma horda de rapazes nus que se dedicam com fervor à educação física. Também da Grécia antiga vem a “polícia”, que tem esse nome porque os gregos chamaram de “polis”  a  cidade-Estado. Mesmo a verdade foi uma ideia  inventada em muitas camadas. Em comum, ideias que deixaram o campo da abstração para se tornarem realidade.

 O autor

Martin Burckhardt nasceu em 1957, na Alemanha. Estudou germanística, artes cênicas e história em Colônia. Artista, professor e autor de vários livros e artigos, leciona na Universidade Humboldt e na Universidade Livre de Berlim.

Dados bibliográficos

PEQUENA HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS
Como a filosofia inventou nosso mundo
MARTIN BURCKHARDT
Trad. Petê Rissatti
14 x 21cm, 176p.
Não ficção, filosofia, história das ideias
ISBN 9788563876119

Um olhar mais humano sobre Heidegger


Livro lança luz às facetas e polêmicas do pensador alemão e analisa sua filosofia, sua posição política, a relação com as mulheres e com o poder 


O filósofo alemão Martin Heidegger pode ser acusado de muitas coisas, mas jamais de ter entrado com monotonia na posteridade. Um dos pensadores mais importantes do século XX, influenciou ninguém menos que Sartre, Lautman, Derrida, Foucault e Lacan – só para citar alguns exemplos. Simultaneamente, concorre também ao título de filósofo mais odiado de todos os tempos, páreo que disputa por seu envolvimento, ainda um tanto nebuloso, com o partido nazista alemão.

Há uma faceta de Heidegger, porém, que segue em paralelo ao caráter polêmico de seu ideário: a de sedutor inveterado. Em vida, o autor de O ser e o tempo conquistou muitas amantes, ao mesmo tempo que manteve a ideia de laço indestrutível – e de casamento aberto – com sua esposa Eufride. Fora o famoso romance com a filósofa judia Hannah Arendt, Heidegger também seduziu alunas da universidade e inúmeras outras mulheres que conheceu em sua trajetória, e que não se preocupou em manter inteiramente escondidas dos olhares da esposa.

Cartas reveladoras

Até que ponto as convicções políticas de um pensador devem influenciar a visão crítica de seu legado? O quão poderoso foi o apoio de Heidegger para o nazismo? Quem era, afinal, esse homem cujo pensamento foi decisivo para toda a escola filosófica francesa entre 1930 e 1970? Alain Badiou e Barbara Cassin debruçaram-se sobre parte da vultosa correspondência que Heidegger trocou com sua mulher, Eufride, para lançar luz a essas zonas de sombra que pairam sobre a figura do filósofo. E assim nasceu Heidegger: O nazismo, as mulheres, a filosofia.

Trecho do livro

Há uma única [mulher], a sua, Elfride. E depois haverá outras, tantas outras. É mesmo assim uma surpresa que, até o final, o pensador de Messkirch e do chalé tenha tido tantas, e as tenha seduzido tão depressa, logo que as encontrava. Da “eksistence” à “épectase”: aos 81 anos “em Augsburgo, onde vai ao encontro de uma mulher”, ele tem um ataque, e Elfride escreverá no verso de sua última carta: “A crise que o derrubou lá esclareceu tudo, definitivamente — desde então, nunca mais nos separamos” (p. 485). Isso é ridículo ou terrível? (p. 57)

Em suas páginas, os autores analisam tanto o paradoxo do grande filósofo extraviado do nazismo quanto a sua relação com as mulheres e com os meandros do poder. Comparam a figura social e intelectual do casal Heidegger com a do casal Sartre-Beauvoir, e lançam luz a detalhes pessoais como o fato de que o primogênito de Heidegger é, na verdade, filho de um amante de Eufride.

Através das cartas que envia à esposa, e pelas lentes de Badiou e Cassin, descortina-se um Heidegger que passa longe de ser um nazista de primeira importância, como muitos acreditam. Em vez disso, é “um nazista banal, pequeno-burguês de província”. É um Heidegger que se revela no contexto ordinário de seus dias: o jovem de 26 anos que treme ao ter de revelar à família católica que pretende ficar noivo de uma protestante. Que envia cartas à esposa citando as suas amantes, enquanto se assegura de que seja ela, Eufride, o seu “porto seguro”. Mas é, também, o autor que transformou, de sua mesa de trabalho no chalé provinciano, a filosofia contemporânea.

O livro Heidegger: O nazismo, as mulheres, a filosofia também nasceu de uma polêmica. Badiou e Cassin eram diretores da Éditions Du Seuil quando, em 2007, publicaram uma seleção de cartas trocadas entre Heidegger e sua mulher, e escreveram um prefácio para a obra. O texto acabou proibido judicialmente, a pedido dos detentores dos direitos autorais do filósofo, e os volumes da correspondência que o incluíam e que ainda se encontravam em circulação foram destruídos. Isolado das cartas, porém, o texto não poderia ser interditado. Pois é uma versão ampliada desse polêmico prefácio que originou este livro que agora chega aos leitores brasileiros.

Os autores

Alain Badiou (Marrocos, 1937) é professor emérito na École Normale Supérieure, filósofo, dramaturgo e romancista. Publicou O ser e o evento, Pequeno manual de inestética, além de inúmeros ensaios, críticas e romances.

Barbara Cassin (França, 1947) é filósofa, filóloga e diretora de pesquisa do Centro Nacional da Pesquisa Científica, em Paris. Publicou Aristóteles e o Lógos, O efeito sofístico, entre outros.

Dados bibliográficos

HEIDEGGER
O nazismo, as mulheres, a filosofia

ALAIN BADIOU e BARBARA CASSIN
Trad. Maria Inês Duque Estrada
13,5 x 18,5 cm, 88p.
Filosofia, relações com mulheres, política
ISBN 9788563876201

Nem paz nem guerra – Três décadas de conflito no Saara Ocidental.

Saara Ocidental: a última colônia africana grita pela independência

Em conflito com o Marrocos há 35 anos, os saarauis reivindicam reconhecimento

Muito perto dos países do Norte da África que protagonizam uma onda de rebeliões contra regimes despóticos está o Saara Ocidental, um território que viveu sob fogo cruzado durante dezesseis anos e, há 35, espera por solução e reconhecimento. Para compreender a realidade por trás dessa guerra esquecida, as jornalistas Giovana Moraes Suzin e Laura Daudén foram a campo conhecer os homens e mulheres que, em ambos os lados, sofrem com a espera e com a iminência de um retorno ao conflito armado. O resultado desta empreitada é o livro-reportagem

 Nem paz nem guerra – Três décadas de conflito no Saara Ocidental.

O livro traça um panorama político, econômico e, sobretudo, humano da guerra e mostra os bastidores da disputa pelo território  –  que envolve governos, organizações internacionais, ativistas e empresas. Após  analisar a evolução do conflito ao longo dos anos, as jornalistas foram em busca de respostas. Por que a Espanha abriu mão de sua colônia africana? Qual o seu papel no conflito atualmente? Quais interesses  estão  por trás das decisões políticas? De que maneira esse conflito se insere em um contexto mais amplo, de equilíbrio de forças no Norte da África? Por que a ONU não conseguiu organizar, ao longo de vinte anos de reivindicações, um referendo em que  a população possa escolher entre a independência e a integração ao Marrocos? O que motiva o silêncio da Europa e dos Estados Unidos? Qual a posição do Brasil, que assume um papel cada vez mais importante na comunidade internacional?

Vídeo feito pelas autoras contando um pouco da história do livro

Um povo dividido por um muro

Durante dezesseis anos, o Saara Ocidental viveu dias de guerra em seu território. A partir de 1991, depois da morte de milhares de pessoas e gastos incalculáveis em armamento, conseguiu-se chegar a um cessar-fogo. Durante a contenda, como forma de tentar manter a fronteira dos territórios já conquistados, o Marrocos construiu um muro de 2.200 quilômetros que até hoje divide o Saara Ocidental: 7/8 seguem sob controle marroquino; 1/8 está nas mãos dos saarauis. Nesta última região, chamada de Zonas Liberadas, ainda há nômades – que ziguezagueiam entre milhares de minas terrestres  –  e soldados  do exército saaraui. Mais a oeste, já dentro da fronteira argelina, estão cinco acampamentos  de refugiados. Ali, na região mais inóspita do deserto, sobrevivem cerca de 200 mil pessoas.

Trecho do livro

“Brahim Sabbar tinha 20 anos quando foi capturado, em 1981, com mais de setenta pessoas, entre elas mulheres, crianças e idosos. Ele foi acusado de criar novas células da Polisário e de distribuir panfletos e bandeiras através da Associação de Belas-Artes e Teatro que tinha na cidade de Dakhla. Nunca foi julgado. Nos seis primeiros meses em que esteve preso, foi torturado e passou o tempo todo com olhos vendados e mãos atadas. O pior, para Sabbar, foi ouvir o som de outros sendo torturados, principalmente de mulheres. Foi transferido para diferentes prisões e não tinha contato com o mundo exterior. Em uma delas, se encontrou com prisioneiros que haviam sido detidos em 1975 e que já eram considerados mortos. […] todos os exLdesaparecidos denunciam as condições sanitárias nas prisões, e alguns têm  até hoje  enfermidades crônicas provocadas pela situação. O Marrocos reconhece que 52 prisioneiros morreram enquanto estavam encarcerados. Há ainda 534 pessoas desaparecidas.” (p. 99-100)

As jornalistas conversaram com essas pessoas e também com aquelas que seguem no território controlado pelo Marrocos. Elas descobriram que, depois de tanto tempo, em ambos os lados do muro, permanece o desejo de ser parte de um país reconhecido. O registro fotojornalístico que acompanha o texto registra os hábitos, costumes, casas e ruas do Saara Ocidental, assim como as regiões desérticas onde a paisagem é cortada por milhares de moradias. Estas,  por causa da esperança que se renova há  anos, ainda são improvisadas,  como se o dia de voltar para casa sempre fosse amanhã. A precariedade do cotidiano, no entanto, não tem mais valor do que os sonhos e dilemas que se escondem por trás de cada rosto retratado.

“Nem paz nem guerra”

Nem paz, nem guerra. Essa é a maneira como os saarauis se referem a esse longo período de indefinições que se estende desde o cessarMfogo até os dias de hoje. O conflito armado já não existe, mas nenhum acordo de paz ainda foi assinado. A violência, no entanto, continua: tem a cara dos protestos que acontecem com frequência no território sob controle do Marrocos; tem a cara das milhares de minas terrestres que ainda contaminam o solo do lado dos saarauis. A violência também paira  nos campos de refugiados, onde a indignação cresce na medida do sofrimento e o retorno às armas está na boca dos jovens que ainda não viram o resultado da diplomacia.  A ONU considera o Saara Ocidental um território não autogovernado, mas não reconhece a república fundada no exílio em 1976. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia reconhece que a ocupação do Marrocos é ilegal. Na região dos acampamentos, na Argélia, a população desenvolveu uma forma própria de organização, numa espécie de  parlamentarismo tribal. Possuem  um presidente e realizam assembleias, mas alguns órgãos  internacionais denunciam a longa permanência dos mesmos representantes no poder.

Todas as crianças são alfabetizadas e, ao ingressarem no  ensino  médio, têm a possibilidade de concluir os estudos nos países que apoiam a independência, como Cuba, Qatar, Argélia,  Líbia. Existem também escolas especiais para crianças com deficiências físicas ou mentais. As mulheres, apesar da tradição de usarem roupas que as cubram da cabeça aos pés, têm autonomia para participar de todos os setores da sociedade, inclusive o político. A única tarefa exclusiva dos homens é a de pegar nas armas.

Além da sensação de conflito iminente,  os nômades e os refugiados  enfrentam desnutrição, já que não dispõem de alimentação suficiente. E dependem inteiramente do recebimento de doações feitas por organizações não governamentais.

 As autoras

GIOVANA MORAES SUZIN é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e em história pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). É repórter da Editora Abril.

LAURA DAUDÉN cursou jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e é mestre em relações internacionais e estudos africanos pela Universidad Autónoma de Madrid. É repórter da revista  IstoÉ  e colaboradora da revista espanhola Pueblos.

Informações bibliográficas

NEM PAZ, NEM GUERRA
Três décadas de conflito no Saara Ocidental
GIOVANA MORAES SUZIN E LAURA DAUDÉN
14 x 21cm, 232p.
Reportagem, relações internacionais, política externa
ISBN 978-85-63114-15-0