Sogras: personagens tão ambíguas quanto surpreendentes

Médica inglesa apresenta histórias e curiosidades relacionadas a sogras famosas e anônimas de todos os tempos

No imaginário ocidental, elas têm sido foco de temor, irritação, chacota e até ódio. Em diferentes culturas, o desconforto ronda a nomenclatura “sogra”, eternizada como vilã em potencial desde os contos de fada até os blockbusters contemporâneos.

O papel das sogras nas sociedades de todos os tempos, porém, é muito mais complexo do que os estereótipos podem fazer supor. E exemplos não faltam. Foic om essa premissa que a médica e escritora inglesa Luisa Dillner, colunista do The Guardian, decidiu pesquisar como as sogras têm sido vistas por diferentes culturas, ao redor do mundo e no decorrer dos séculos. Em uma investigação inusitada, incluindo nomes como Marylin Monroe, Edgar Allan Poe, Virginia Woolf e a princesa Diana, a autora levantou histórias peculiares sobre as mães de seus  parceiros.

O resultado é O livro das sogras: Uma celebração. Os capítulos dão conta de histórias de quem amou e de quem odiou suas sogras; descrições de rituais, tratamentos e as mudanças de comportamento que têm pautado a complexa relação entre genros e sogras; e tudo o mais relacionado ao tema: relatos de noras felizes com suas sogras, poemas e canções sobre o tema, receitas como o coquetel e a canja da sogra, dicas para ser uma boa sogra e como estas são chamadas em diferentes línguas mundo afora.

Estão lá causos e curiosidades sobre as sogras desde a mitologia romana (Vênus ficou muito enciumada ao ver seu filho encantado pela beleza de Psiquê) até a era digital, onde a internet se tornou ao mesmo tempo campo de batalhas e mural de elogios para sogras e noras.

Trechos do livro

“A história está cheia de citações de sogras que subestimaram os genros. A sogra do compositor norueguês Grieg comentou sobre ele: ‘Ele não é nada e não tem nada, e escreve música que ninguém quer ouvir’.O primeiro encontro entre a sogra e a nora é também matéria-prima de lendas por ele poder determinar o rumo do relacionamento. Foi com essas preocupações em mente que a atriz de cinema Marilyn Monroe foia presentada à mãe do dramaturgo Arthur Miller, de quem já estava noiva. O casal foi jantar no pequeno apartamento da sra. Miller, no Bronx, e Marilyn estava sedando bem com a futura sogra. Porém, um pouco antes de saírem, ela precisou ir ao banheiro. Havia apenas uma porta fina entre a sala de estar e o banheiro, então, para evitar o constrangimento de eles a ouvirem no outro cômodo, ela abriu as torneiras da pia. Ao sair, eles se despediram e, no dia seguinte, Arthur telefonou para a mãe e perguntou: ‘Gostou dela?’.E ela respondeu: ‘Ela é doce. Uma garota maravilhosa, mas urina como um cavalo!’.”(p.28)

Leia o 1º capítulo

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Casos de amor e ódio

Na contramão do que prega o senso comum, Luisa Dillner mostra que há na História inúmeras provas de amor, por vezes incondicionais, entre sogras e genros. Edgar Allan Poe, por exemplo, nutria tanta adoração por sua sogra que, em sua ausência, escreveu cartas desesperadas de saudade, e em uma delas chegou a declarar –“a amo mais do que 10mil vidas”; acabaram enterrados lado a lado. E o poeta inglês John Keats morreu jovem demais (com apenas 24 anos) para se casar oficialmente com a bela Fanny, mas foi a mãe desta quem cuidou de sua tuberculose.

Por outro lado, há registros de repulsa por toda parte. Os  korawais, em Papua Nova Guiné, não podem entrar no campo de visão de suas sogras, e vice-versa; a comida de ambos é preparada separadamente, e não é permitido que dividam louças e talheres entre si. Em Delhi, o Supremo Tribunal determinou que um marido pode se divorciar de sua mulher se esta se recusara conviver harmoniosamente com a sogra. Enquanto isso, na Itália, as sogras estão sendo acusadas pelo aumento das separações: uma pesquisa divulgou que a taxa de divórcio aumentou em quase 50% entre 2000 e 2002 e que há registros de que três em dez casamentos fracassaram por causa da ligação íntima incomum dos homens italianos com suas mães.

Vilãs ou santas, alvos de antipatia ou de gratidão infinita, o que a obra de Luisa Dillner confirma, com suas inúmeras histórias saborosas e polêmicas, é que existem sogras de todo o tipo. Em comum, porém, um traço inconteste: não passam despercebidas. Impossível olhá-las do mesmo jeito depois da leitura deste livro.

A autora

A médica e escritora inglesa LUISA DILLNER é colunista de  The Guardian  e foi diretora de publicações do British Medical Journal Publishing Group. Colabora para vários jornais e revistas, como Vogue, Cosmopolitan e Observer. A maternidade é um tema recorrente em seus textos que, não raro, são considerados fonte de ideias inovadoras. A autora vive em Londres, com seus quatro filhos.

Dados bibliográficos

O LIVRO DAS SOGRAS
Uma celebração
LUISA DILLNER
Trad. Lourdes Sette
14x 21cm, 320p.
Não ficção, comportamento, cultura, relacionamentos familiares
ISBN 9788563876171

Beba cerveja, faça amigos e seja feliz

Livro propõe que beber cerveja significa encontrar fonte de prazer e compreensão da mente humana.

Cerveja & filosofia chegou para incrementar ainda mais a famosa expressão  filosofia de botequim, pois oferece aos amantes da cerveja novos debates que vão desdea produção da bebida até os encontros para apreciá-la. Organizado pelo norte-americano PhD em filosofia Steven D. Hales, o livro é uma oportunidade para refletir sobre a representação do ato de beber cerveja na vida das pessoas.

O volume reúne vários artigos escritos por diferentes profissionais, incluindo filósofos, produtores de cerveja, mestres cervejeiros e bebedores profissionais. O ponto principal é analisar por que a cerveja é considerada a bebida mais democrática, reconhecida como um ícone socialmente agregador de grupos distintos. Os textos propõem que o estudo sobre a cerveja pode revelar traços importantes sobre a mente e a moralidade humana.

Trecho do livro

“´O que há para ser dito sobre a cerveja?´ éa pergunta que ressoa constantemente em minha cabeça nos últimos trinta anos. Minha resistência e persistência devem encorajar esses ignorantes que irritam com suas crenças de que os amantes da cerveja são estúpidos. ‘Eles não sabem ler os fatos´, tenho certeza, apesar de nenhuma evidência ser oferecida. Se isso fosse verdade, os literatos pequeno-burgueses não teriam encontrado nenhum amante da cerveja em quem basear suas conclusões.Os que eu encontrei nos últimosdias parecem ser obcecados por filosofia.” (p.9)

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Dividido em quatro partes –“A arte da cerveja”, “A ética da cerveja: prazeres, liberdade e caráter”, “A metafísica e a epistemologia da cerveja”, “A cerveja na história da filosofia” –, o livro é apresentado por Cilene Saorin, a mais representativa sommelier de cervejas do Brasil. O livro expõe temas sobre os elementos de produção e ingredientes que tornam uma cerveja boa ou ruim, as diferenças entre cervejas industrializadas e artesanais (golden larger, bocks, amber ale), as leis que apoiam ou comprometem a comercialização e a produção da bebida. É interessante pensar que,enquanto um artesão produz a própria cerveja, desenvolve a percepção pessoal e sensorial, a ousadia e explora novas fronteiras.

Cerveja: sinônimo de prazer

O consumo de cerveja é datado desde antes do nascimento de Cristo. Trabalhadores que construíram as pirâmides do Egito recebiam diariamente um barril de cerveja como pagamento. Após um dia árduo de trabalho nas construções, se reuniam para beber, pararelaxar. Desde a Antiguidade, encontrar-se, portanto,com outras pessoas, escolher a cerveja preferida, acompanhá-la ser servida e degustá-la faz parte de um ritual de arte e prazer que, talvez, só os bebedores compreendam.

No livro, alguns articulistas discutem se os métodos de produção influenciam diretamente nos tipos de cerveja e sabores obtidos. A industrialização em massa e os ingredientes não tão refinados contribuiriam para uma qualidade inferior? Outros acreditam que existem, sim, sabores e qualidades diversos, mas o essencial é o contexto no qual a bebida é experimentada. Não importa a procedência da cerveja, mas se o momento de consumo é ou não especial.

O que diriam Kant, Henry James, Aristóteles e outros?

Os textos têm um toque de humor tanto na linguagem quanto nos argumentos propostos, por exemplo, quando se aborda a questão das lentes da cerveja. Por que, depois de algumas rodadas de chope, nosso companheiro parece mais bonito? Acerveja tem efeitos psicoativos, ou seja, transforma temporariamente a percepção, o humor e o comportamento, oferecendo ao consumidor um estado novo de consciência. E ainda:se a cerveja proporciona tanto prazer, por que existe a ressaca do dia seguinte? Talvez, Immanuel Kant, John Stuart Mill ou Henry James tenham a resposta.

A cerveja desperta paixões porque está ligada ao prazer, àamizade, ao conhecimento e à espiritualidade. Para o grego Plutarco, a finalidade da bebida é alimentar e aumentar a amizade. E a discussão se prolonga, passando por Aristóteles até pensadores modernos. Jason Kawall acredita que, ao beber socialmente, a pessoa se expõe, compartilha seu dia a dia e as futuras atividades. Ao criar histórias e memórias com determinado grupo por meio de uma convivência que só a cerveja é capaz de oferecer, gera-se solidez para uma amizade rica e autêntica. Como afirma Charles Baudelaire, em Paraísos artificiais:“Um homem que só bebe águatem um segredo a esconder de seus semelhantes”.

Coleção Sabores e Prazeres de Epicuro

Cerveja & filosofia é parte da coleção Sabores e Prazeres de Epicuro, batizada a partir do fundador do epicurismo. Os livros exploram aspectos filosóficos entremeados a ações cotidianas, como comer um bom prato, beber cerveja ou degustar uma taça de vinho. A coleção apresenta o pensamento crítico de filósofos clássicos e contemporâneos, além de profissionais da gastronomia, degustação e sommeliers, além de aspectos históricos, sociais, questões legais e experiências pessoais.

Próximos lançamentos:

Comida & filosofia – Coma, pense e seja feliz | apres. Roberta Sudbrack
Vinho & filosofia
– Um simpósio sobre pensar e beber | apres. Deise Novakoski

O autor
STEVEN D. HALES é professor de filosofia da Universidade de Bloomsbury, na Pensilvânia,e especialista em epistemologia e metafísica. É autor de diversos artigos sobre a relação entre filosofia, cotidiano e sociedade. Sua cerveja favorita é a Three Philosophers, produzida pela cervejaria Ommegang.

Dados bibliográficos:

CERVEJA & FILOSOFIA
Leia, pense e consuma sem moderação
ORG. STEVEN D. HALES
APRES. CILENE SAORIN
Trad. Marina Herrmann
16 x 23cm, 288p.
Filosofia, História, cerveja
ISBN 9788563114075

Um minucioso retrato da sociedade brasileira do Segundo Reinado

Ubiratan Machado retrata a história cultural de um período essencial para o entendimento da complexa relação entre literatura e vida social no país

Em 1820, o comércio livreiro ainda engatinhava no Brasil. Quem fosse a uma das únicas quatro livrarias do Rio de Janeiro, encontrava de tudo – tinta, rapé, chás e porcelanas. Livros, porém, eram escassos, e limitados à esfera de novelas populares e manuais de devoção. A efervescência de salões literários e a boêmia, por conseguinte, eram coisa de outro mundo –nestas terras, o hábito era dormir com as galinhas.

A situação começou a melhorar a partir de 1840, quando d. Pedro II, ainda menino, assume o trono. A paixão do imperador pelas letras, associada ao encurtamento da distância com a Europa – com o surgimento do telégrafo elétrico, entre outras transformações – foi decisiva para a valorização da literatura nacional. Nada disso, porém, anulava o menosprezo e a desconfiança com que poetas e romancistas eram vistos pelos comerciantes e pela burguesia.

A vida literária no Brasil durante o romantismo é um vigoroso estudo sobre a afirmação da literatura no contexto do Segundo Reinado. Ubiratan Machado recria os principais aspectos do ambiente intelectual brasileiro em uma época imprescindível para se compreendera complexa relação entre literatura e sociedade no país. Com isso, cria não apenas um retrato da esfera literária, mas, sobretudo, faz uma deliciosa descrição dos padrões de comportamento da sociedade da época.

Trechos do livro
“As primeiras gerações românticas iniciaram a tradição dos escritores se reunirem em livrarias, transformadas quase em clubes de bate-papo literário, com livre trânsito para fofocas, algumas maldosas, leitura de poemas, elogios mútuos e consulta regalada às últimas novidades chegadas de Paris.

Esse prazer, desconhecido das gerações anteriores, afirma-se nos anos 1830, em sinal inequívoco de estabilidade da vida do país e de enriquecimento de sua vida intelectual. Pode-se dizer, parodiando uma máxima da belle époque, que o Brasil civilizava-se. Um quadro muito diferente do que predominara até o início da década anterior.”(p. 67)

Com uma pesquisa abrangente e detalhada, o autor aborda a emergência, enfim, de um público nacional para as letras; o nascimento da vida literária em livrarias, cafés e confeitarias; a popularização da poesia; o surgimento da crítica; a modernização das bibliotecas e a consagração dos salões. Além disso, lança luz sobre personagens-chave neste processo, como o editor Paula Britto e o próprio imperador. Esmiúça como os estudantes e as mulheres, que viviam suas primeiras aventuras de libertação, foram essenciais para a consolidação do público leitor brasileiro. E, ao narrar a evolução do mercado editorial no país, chega a minúcias como o valor exato pago por romances como O guarani e A moreninha.

Diante de tudo isso, as anedotas referentes ao período não ficam de fora. Ubiratan Machado resgata figuras como o frei Bastos Baraúna, religioso que entoava as mais arrebatadoras homilias quando se encontrava recém-saído da cama de meretrizes ou das mesas de jogo. Ou como o mórbido Tibúrcio Antonio Craveiro, autor da primeira tradução de Byron no Brasil.

Segundo os relatos da época, o escritor teria sua casa decorada com aparelhos de tortura, múmias e gravuras macabras. As paredes seriam salpicadas de sangue; sua mesa de trabalho, uma lousa de mármore negro, retirada da sepultura de uma donzela.

A vida literária no Brasil durante o romantismo retorna às prateleiras em reedição revista e ampliada, com projeto gráfico totalmente reformulado. Um roteiro ilustrado integra o volume, com uma seleção de desenhos, caricaturas e litogravuras que representam bem a época. Estão lá, por exemplo, as imagens da Semana Ilustrada, publicação de destaque no período romântico, e de periódicos como Vida Fluminense e o raro Bazar Volante.

O autor
Ubiratan Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1946. Jornalista, escritor e tradutor, estreou na literatura com Os intelectuais e o espiritismo. Publicou ao todo 18 títulos, entre os quais Machado de Assis, roteiro da consagração, A etiqueta de livros no Brasil, Dicionário de Machado de Assis e  Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras. Recebeu da Academia Brasileira de Letras a medalha João Ribeiro, por serviços prestados à cultura brasileira.