Receitas para falar com os ceús – O céu na boca

Livro de gastronomia se debruça sobre as cozinhas de monastérios, conventos e abadias

Céu na boca - Fabiano Dalla Bona

O velho ditado “é de se comer rezando” tem origens mais significativas do que costumamos supor. Afinal, se hoje a arte da boa mesa é artigo dos mais valorizados, deve-se muito ao papel –por vezes abstêmico –de padres, monges, freis e até santos. Religiosos que, por séculos e séculos, têm mostrado que o caminho entre o pecado da gula e o alimento da alma pode ser muito mais curto do que parece à primeira vista.

Baseado na premissa de que a religião —sobretudo o cristianismo —teve um papelprimordial sobre a culinária, O céu na boca é um livro de gastronomia diferente de todos os outros. Como o autor explica, na apresentação, a obra pretende “resgatar, redescobrir a comida dos monastérios, dos conventos e das abadias. O segredo de uma autenticidade que se dilata até os alimentos, as ervas, as bebidas”.Um rol tão abrangente que inclui doces, pães, sopas, risotos, massas e receitas de carnes. Em comum, o flerte, em diferentes graus, com a busca pela transcendência. 

Com experiência na literatura e na gastronomia italiana, Fabiano Dalla Bona nos proporciona uma saborosa viagem pela cozinha de espaços nos quais a comida esteve sempre associada seja à rotina religiosa, seja à eterna busca pela comunicação com os céus. Imbuído de curiosidade e senso investigativo, Dalla Bona invadiu, com sua pesquisa, a despensa de conventos, monastérios, mosteiros, igrejas e espaços clericais, para apresentar, nas receitas e nos textos de O céu na boca, toda a influência que esses locais de meditação e de contemplação exerceram sobre os modos de cozinhar.

Trechos do livro
“Aqui, o leitor encontra uma pesquisa dos lugares onde a cozinha, no curso dos séculos, foi tratada com sobriedade, respeito e muito amor. Uma descoberta de cadernos amarelados, muitas vezes escritos à pena ao longo de muitos anos, e que revelam receitas passadas através dos segredos das despensas. Perfumes de ervas aromáticas, de confeitos caseiros, de chás benéficos, de xaropes, de temperos. E ainda, de licores energéticos, de destilados específicos, de iguarias que são pratos únicos, de saladas preparadas com produtos frescos do sempre presente horto, de legumes para os dias de jejum, de peixes e ovos que muitas vezes substituíam a custosa carne.” (p. 8)

“A cozinha dos conventos e mosteiros atravessou incólume toda a História da humanidade. Por séculos, os refeitórios e as despensas desses grandes complexos — que não foram apenas centros religiosos, mas serviram também como refúgio para pobres e sem-teto, albergue para caminhantes e peregrinos, e hospital para os enfermos — constituíram importantes locais de aglomeração. Durante muitos anos, foram os locais de contato entre diferentes classes sociais, aristocratas e populares, se pensarmos nas origens dos abades e abadessas, geralmente membros de famílias aristocráticas, e dos simples frades, cuja procedência social e econômica era modesta.” (p. 148)

 

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O resultado desse trabalho minucioso aparece dividido em seis capítulos, fora a apresentação(como sugestivo nome de “A comida dos céus”): “Receitas de santos”, “Receitas da hierarquia eclesiástica”, “Receitasdos lugares santos”, “Receitas do calendário litúrgico”, “Receitas de lugares ‘menos’ santos” e “Receitas dos pecados capitais”.

Dessa forma, o leitor não apenas tem à disposição dezenas de receitas, das mais diversas, como também aprende histórias e curiosidades sobre a origem dos pratos. De quebra, Dalla Bona ainda esclarece as nomenclaturas, a hierarquia e muitos dos ritos religiosos que, de uma forma ou de outra, ajudaram a moldar algumas das delícias de hoje. Nocapítulo dedicado aos quitutes dos santos, o livro ainda apresenta uma oração –para fazer jus, enfim, ao ditado “é de se comer rezando”.

Para abrir o apetite
Além do conteúdo informativo e histórico sobre os bastidores da cozinha dos conventos e monastérios, O céu na boca reúne cerca de 100receitas, entre elas:Lagosta de São Sebastião; Berinjelas de São Bernardo; Olhos de Santa Luzia; Sapatinhos de Santo Hilário; Pamonha de São Jorge; Ossos de Santo Expedito; Sacristãos de Queijo; Javali  agridoce à moda do papa Alessandro Vi; Bacalhau à padre Antônio; Barrigas de freira; Pudim àMadre Paula; Espaguete da ermida;Arroz vermelho do Mosteirodos Frades de LaLuz; Carne à moda do convento franciscano; Frango do papado provençal; Torta do Paraíso; Amores da Cúria; Sopa do Domingo de Ramos; Salame do papa; Pan de muertos; Lentilhas de Ano-Novo; Ovos no Purgatório; Filé do Diabo; Feijões do Inferno; Bolo Quinto Pecado; Sopa de pedra; Quindim dos Sete Pecados.

O autor

Fabiano Dalla Bona (Curitiba, 1969) é doutor em língua e literatura italiana pela UFRJ e professor da mesma instituição. Divide seu tempo entre livros e panelas e já publicou artigos em revistas como Prazeres da Mesa, Alta Gastronomia e Top View Curitiba. Autor do livro Literatura e gastronomia –Um casamento perfeito e de descendência italiana, Dalla Bona trabalha com cultura e memória gastronômica e as diferentes associações à arte da cozinha, em especial com a gastronomia italiana. O autor vive no Rio de Janeiro.

Dados bibliográficos

O CÉU NA BOCA
FABIANO DALLA BONA
14 x 21cm, 272p.
Curiosidades gastronômicas, receitas,
personagens religiosos
ISBN 9788563114099

 

 

Livro da Metaficção – viagem aos enigmas da metaficção, de Dom Quixote a Hitchcock

Viagem aos enigmas da metaficção, de Dom Quixote a Hitchcock.
Livro da Metaficção - Gustavo Bernardo

Numa prosa provocadora, Gustavo Bernardo passeia por obras e artistas de diferentes épocas, para abordar acapacidade que tem a ficção de se duplicar.

“A metaficção é uma ficção que não esconde que o é.”É com proposições como esta —mais um convite à reflexão do que o apontar de teorias definitivas —que o escritor, ensaísta e
professor universitário Gustavo Bernardo sugere passar em revista as possibilidades e os enigmas a respeito do termo “metaficção”.

Em sua empreitada, vasculha o que têm a dizer ou já disseram sobre o assunto não só pensadores, artistas e filósofos, mas, sobretudo, as grandes obras de arte. Por isso, O livro da metaficção usa como linhas mestras a literatura de Julio Cortázar, as ilustrações do holandês M. C. Escher, os quadros do surrealista belga René Magritte, o intricado e encantador jogo de Dom Quixote de la Mancha, a obra de Machado de Assis, os filmes de Eduardo Coutinho e de Alfred Hitchcock, a escrita da canadense Margaret Atwood. E, ao ligar esses pontos dispersos no tempo e no espaço,une também num mesmo diálogo artistas como o cartunista Quino, a fotógrafa Cindy Sherman, o escritor irlandês C. S. Lewis ou o poeta brasileiro Antonio Cícero —só para citar alguns exemplos, entre as centenas de outros destrinchados no livro. 

 

Trechos do livro
“O livro da metaficção aborda manifestações pictóricas, cinematográficas e principalmente literárias […]. Não pretendo nem resolver nem desfazer tais enigmas, mas sim protegê-los o quanto possível. O prazer depende da preservação dos enigmas, enriquecendo-se, e não se diminuindo, com a reflexão cerrada sobre eles. Como diria o crítico de cinema André Bazin (1958, p. XI), ‘a função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo pos-sível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte’. (p. 27)

A metaficção desconfia da realidade, logo desconfia do realismo. A metaficção desconfia do autor, logo desconfia também do leitor. A metaficção desconfia de si mesma, logo desconfia de qualquer presunção de identidade. Sua característica principal é a autoconsciência, mas uma autoconsciência irônica e, de certo modo, trágica.” (p. 51-52)

Debruçado sobre os enigmas da identidade e da metaficção, Gustavo Bernardo, porém, adverte: não pretende nem resolver nem desfazer tais enigmas, mas sim protegê-los o quanto possível. Assim, assume seu talento de educador em prol do que há de mais precioso na experiência estética da metaficção —sua capacidade de se reiventar e, assim sendo, reinventar também o mundo. Com isso,lança ao leitor atento uma gama infindável de provocações, numa prosa instigante.

Seu passeio buliçoso vai desde o momento em que, no século I antes da Era Comum, Andrônico de Rodes, que editava as obras de Aristóteles, deu origem à palavra “metafísica”.

Passa pelos questionamentos do século XIX, tempo impregnado pela ideia de superioridade do real. Conta como William Gass cunhou o termo “metaficção” para designar os novos romances americanos do século XX, que subvertiam os elementos narrativos canônicos. Ressalta como este mesmo século, com seus impasses e incertezas, viu a expressão “metaficção” ganhar força. E mostra como esta também tem sido posta na berlinda, vista por alguns como um recurso dos mais sofisticados e, por outros, como sintoma de uma cultura narcisista e decadente. 

O autor chega até aquilo que intitula “metaficção científica”: a que desconfia “da realidade e do realismo, do autor e do leitor, de si mesma e de qualquer presunção de realidade”. E também à “metarrealidade”: “Aquela realidade que a ficção constrói e que surge, para o leitor e para o espectador, como ‘mais real do que o real’”. Tudo isso para encarar, com o apuro de quem nunca deixa de se assombrar com as possibilidades da arte, a metamorfose inesgotável da ficção.  

O autor

Gustavo Bernardo nasceu no Rio de Janeiro, em 1955. Doutor em Literatura Comparada pela Uerj, é professor de Teoria da Literatura e desenvolve pesquisa sobre as relações entre a literatura e o ceticismo. Publicou mais de vinte títulos, entre os quais os juvenis Pedro Pedra e A alma do urso, o ensaio A dúvida de Flusser (que ganhou Menção Honrosa no Prêmio Jabuti 2003) e os romances Lúcia e a A filha do escritor (finalista do 7º Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009 e do 6º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2009).

Dados bibliográficos
O LIVRO DA METAFICÇÃO
GUSTAVO BERNARDO
14 x 21cm, 280p.
Crítica literária, narrativas de ficção, audiovisuais, pintura, fotografia, HQ, estética
ISBN 9788563114006

Metendo o pé na lama – a história do Rock in Rio (1985)

A história do maior festival de rock que o Brasil já viu

Cid Castro, o publicitário que criou a marca Rock in Rio, narra episódios ainda obscuros por trás do evento.

Metendo o pé na lama - Cid CastroQuando o Iron Maiden subiu ao palco na noite daquela sexta-feira, 11 de janeiro de 1985, não houve problema de som, embargo de político ou previsão de Nostradamus que segurasse a plateia enlouquecida pulando no terreno lamacento de Jacarepaguá. Era o Rock in Rio, o maior festival do gênero que o país já viu —e, até hoje, 25 anos depois, um manancial inesgotável de histórias e curiosidades que marcaram época.

Cid Castro, o publicitário quecriou a marca do mega evento —aquela que traz o mapa da América Latina desenhado no braço de uma guitarra —, não só viveu intensamente os dez dias seguidos de rock’n’roll, como também acompanhou todo o seu processo de preparação. Na época assistente de ilustração da Artplan, a agência de publicidade responsável por todo aquele barulho, Cid foi testemunha de todos os passos rumo à Cidade do Rock, desde que Roberto Medina deixou um bocado de gente de cabelo em pé ao anunciar que faria o maior festival de todos os tempos.

Trechos do livro

O longo corredor dos camarins era ladeado por dezenas de portas e parecia a Marquês de Sapucaí, dada a quantidade de plumas e paetês que por ali passavam. Empresários, produtores, músicos, e babás de artistas desfilavam naquela passarela da fama.

De repente, abre-se uma porta bem à minha frente e sai toda a banda do Whitesnake correndo. Pensei que eles estavam atrasados para o show. Mas, ao chegarem até a entrada do palco, voltam correndo até a porta do camarim e tornam a fazer isso repetidas vezes.Que doideira era aquela? Quando começaram a fazer flexões é que reparei que um personal trainer dava as ordens. Ou seja, eles estavam se aquecendopara entrar no palco. Era impressionante ver o profissionalismo das bandas do metal.

Solicitaram a retirada de todas as bebidas alcoólicas do camarim, que foram substituídas por sucos naturais e muita água, pois a gringalhada estava derretendo no verão carioca. Junto com um massagista, um nutricionista completavaotratamento com cardápio bem balanceado. (p. 174-175)

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Metendo o pé na lama passeia, com muito humor e uma prosa sem papas na língua —bem ao estilo do evento —, pelos tresloucados episódios que fizeram da gigantesca festa rock uma ocasião inesquecível para milhares de pessoas. Das dificuldades em conseguir um patrocinador até os peculiares hábitos dos astros internacionais, o autor conta, com riqueza de detalhes, como foram os bastidores do festival.

Foi nos bastidores, afinal, que ele viu a turma do Whitesnake substituir a atitude hard rock por inocentes flexões e sucos naturais. Testemunhou o piti de Fred Mercury, que, alegando uma “indisposição”, recusava-se a entrar no palco. Presenciou o sufoco da produção, que teve de percorrer, às pressas, todos os motéis da Barra e de Jacarepaguá para satisfazer a uma exigência de última hora de Rod Stewart: 70 toalhas brancas em seu camarim. E ficou surpreso ao constatar que Ozzy Osbourne preferia devorar pratos de salada a pintinhos e morcegos.

Colega de agência de um então desconhecido Nizan Guanaes e pupilo do papa da ilustração José Luís Benício, Cid Castro contatambéma apreensão doclima carioca nos meados dos anos 80, quando a abertura política enfim se concretizava,e a juventude, por tanto tempo oprimida, curtia não só o rock como os outros elementos da famosa tríade: o sexo e as drogas.

Metendo o pé na lama contémainda depoimentos exclusivos de artistas que se apresentaram e jornalistas que cobriram o festival, além de imagens marcantes do evento que há 25 anos se consagrou como o maior e melhor da história do rock.

O autor
Com mais de 20 anos de experiência na publicidade e propaganda, no Brasil e no exterior, Cid Castro  iniciou sua carreira na Denison Publicidade, no Rio de Janeiro, em 1982. No mesmo ano foi contratado pela Artplan Promoções. Em 1984, criou a marca do Rock in Rio Festival. Trabalhou na Artplan até o final da década de 1980, quando se mudou para a Europa. Lá, integrou a equipe da JW Thompson Publicidade e se tornou diretor de criação da DDB Publicidade Lisboa. Atualmente vive emPortugal e trabalha como freelancer.

Dados Bibliográficos
METENDO O PÉ NA LAMA
Os bastidores do Rock in Rio de 1985
CID CASTRO
14 x 21cm, 264p.
Música, publicidade, anos 80
ISBN 9788563114068

Vida literária no Brasil durante o Romantismo

Vida literária no Brasil durante o Romantismo - Ubiratan Martins

 

Um minucioso retrato da sociedade brasileira do Segundo Reinado

 

Ubiratan Machado retrata a história cultural de um período essencial para o entendimento da complexa relação entre literatura e vida social no país.

 

Em 1820, o comércio livreiro ainda engatinhava no Brasil. Quem fosse a uma das únicas quatrolivrarias do Rio de Janeiro, encontrava de tudo –tinta, rapé, chás e porcelanas. Livros, porém, eram escassos, e limitados à esfera de novelas populares e manuais de devoção. A efervescência de salões literários e a boêmia, por conseguinte, eram coisa de outro mundo –nestas terras, o hábito era dormir com as galinhas.

 

A situação começou a melhorar a partir de 1840, quando d. Pedro II, ainda menino, assume o trono. A paixão do imperador pelas letras, associada ao encurtamento da distância com a Europa – com o surgimento do telégrafo elétrico, entre outras transformações –foi decisiva para a valorização da literatura nacional. Nada disso, porém, anulava o menosprezo e a desconfiança com quepoetas e romancistas eram vistos pelos comerciantes e pela burguesia.

 

A vida literária no Brasil durante o romantismo é um vigoroso estudo sobre a afirmação da literatura no contexto do Segundo Reinado. Ubiratan Machado recria os principais aspectos do ambiente intelectual brasileiro em uma época imprescindível para se compreendera complexa relação entre literatura e sociedade no país. Com isso, cria não apenas um retrato da esfera literária, mas, sobretudo, faz uma deliciosa descrição dos padrões de comportamento da sociedade da época.

 

Trechos do livro

“As primeiras gerações românticas iniciaram a tradição dos escritores se reunirem em livrarias,transformadas quase em clubes de bate-papo literário, com livre trânsito para fofocas,algumas maldosas, leitura de poemas, elogios mútuos e consulta regalada às últimas novidades chegadas de Paris.

 

Esse prazer, desconhecido das gerações anteriores, afirma-se nos anos 1830, em sinal inequívoco de estabilidadeda vida do país e de enriquecimento de sua vida intelectual. Pode-se dizer, parodiando uma máxima da belle époque, que o Brasil

 

Com uma pesquisa abrangente e detalhada, o autor aborda a emergência, enfim, de um público nacional para as letras; o nascimento da vida literária em livrarias, cafés e confeitarias; a popularização da poesia; o surgimento da crítica; a modernização das bibliotecas e a consagração dos salões. Além disso, lança luz sobre personagens-chave neste processo, como o editor Paula Britto e o próprio imperador. Esmiúça como os estudantes e as mulheres, que viviam suas primeiras aventuras de libertação, foram essenciais para a consolidação do público leitor brasileiro. E, ao narrar a evolução do mercado editorial no país, chega a minúcias como o valor exato pago por romances como O guarani e A moreninha.

 

Diante de tudo isso, as anedota sreferentes ao período não ficam de fora. Ubiratan Machado resgata figuras como o frei Bastos Baraúna, religioso que entoava as mais arrebatadoras homilias quando se encontrava recém-saído da cama de meretrizes ou das mesas de jogo. Ou como o mórbido Tibúrcio Antonio Craveiro, autor da primeira tradução de Byron no Brasil. Segundo os relatos da época, o escritor teria sua casa decorada com aparelhos de tortura, múmias e gravuras macabras. As paredes seriam salpicadas de sangue; sua mesa de trabalho, uma lousa de mármore negro, retirada da sepultura de uma donzela. 

 A vida literária no Brasil durante o romantismo retorna às prateleiras em reedição revista e ampliada, com projeto gráfico totalmente reformulado. Um roteiro ilustrado integra o volume, com uma seleção de desenhos, caricaturas e litogravuras que representam bem a época.

 

Estão lá, por exemplo, as imagens da  Semana Ilustrada, publicação de destaque no período romântico, e de periódicos como Vida Fluminense e o raro Bazar Volante.

 

O autor

Ubiratan Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1946. Jornalista, escritor e tradutor, estreou na literatura com Os intelectuais e o espiritismo. Publicou ao todo 18 títulos, entre os quais Machado de Assis, roteiro da consagração,  A etiqueta de livros no Brasil,  Dicionário de Machado de Assis e  Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras. Recebeu da Academia Brasileira de Letras a medalha João Ribeiro, por serviços prestados à cultura brasileira.

 

Dados bibliográficos

A VIDA LITERÁRIA NO BRASIL DURANTE O ROMANTISMO
UBIRATAN MACHADO
16 x 23cm, 392p.
Romantismo, memória, sociedade, cultura, século XIX
ISBN 9788563114020

Contos mais que mínimos

Retratos de corpo inteiro em apenas 500 caracteres

 

Coletânea de microcontos de Heloisa Seixas aborda, de forma intensa, temas como amor, solidão, literatura, fantasmas e o universo

 

Contos mais que mínimos - Heloísa SeixasDurante dois anos, a jornalista e escritora Heloisa Seixas dedicou-se a escrever contos marcados pela concisão extrema. Criava, duas vezes por semana, histórias de um parágrafo, pouco mais de 500 caracteres, seis linhas e meia na tela do computador. Era o material de sua coluna na Folha de S.Paulo, chamada, não à toa, Contos Mínimos. Mais tarde, a autora ganhou um novo espaço na revista Domingo do Jornal do Brasil, onde permaneceu nos oito anos seguintes.

 

Contos mais que mínimos reúne 60 microtextos dos seus anos como colunista da Folha, e ilustrados com linoleogravuras de André Beltrão. As histórias, de temas como amor, solidão, literatura, fantasmas e o universo, refletem uma enorme capacidade de dizer muito em pouquíssimo espaço. São cheias de surpresas, reflexões, fantasias, tragédias, lirismo. Por vezes, aproximam-se da crônica. Algumas são relatos em primeira pessoa e, não raro, representam recortes afiados do espaço urbano contemporâneo, com suas idiossincrasias e contradições.

 

Apesar de habitarem espaço tão curto, os personagens são intensos. Alguns, famosos: o escritor americano Paul Auster, retratado em seu susto diante da queda do Muro de Berlim; o brasileiro Carlos Heitor Cony; o filósofo francês André Glucksmann; o poeta mexicano Octavio Paz. Mas, em sua maioria, são anônimos solitários, personagens que compõem o mosaico dos vários cotidianos das cidades, presos na labiríntica angústia do dia a dia.Como o personagem que, numa linha telefônica cruzada, captura um grito —para em seguida perdê-lo para sempre.

 

Ou a mulher de branco que enfrenta um temporal em Ipanema. Ou aquela que escreve, em teclas cor de marfim, uma carta de adeus. São as mulheres, afinal, as protagonistas por excelência destes microcontos, nos quais prevalece, sempre, o universo “sombrio, assombrado, às vezes louco” de Heloisa Seixas.

 

A autora

Jornalista e escritora, Heloisa Seixas nasceu em 1952, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Estreou na ficção em 1995, com o livro de contos Pente de Vênus. Lançou, ao todo, mais de 10 títulos, por diferentes editoras, entre romances, infantojuvenis e textos curtos. Também participou de diversas antologias. Foi três vezes finalistas do prêmio Jabuti, e agora também trabalha em um outro campo da criação: a dramaturgia.

 

Trechos do livro

“Quantos segundos você levará para ler o que está escrito aqui? Vinte, trinta, quarenta segundos? Um minutos, talvez, se estiver distraído e em algum ponto tiver de recomeçar? Dez segundos, se começar a ler e, desinteressado, desviar os olhos deste espaço onde alguns tolos insistem em deixar seus rastros? Quanto tempo?

 

A vida é assim, feita de pequenos conjuntos de segundos, frações de tempo sobrepostas, mínimas como o espaço de tempo que se leva para ler isto aqui. E de repente, lá está: trinta, quarenta, sessenta —e os segundos se transformam em anos.”  (p. 93)

 

 

 

 

Dados bibliográficos

CONTOS MAIS QUE MÍNIMOS
HELOISA SEIXAS
13,5x 18,5cm, 96p.
Literatura brasileira, conto
ISBN 9788563114013